Como vai?!

Hoje, meu amigo, você perguntou:

– Como vai?

Respondi:

– Muito bem.

Não acredito que tenha entendido a sinceridade e a precisão de minha resposta – deve tê-la tomado como conversa casual.

Amigo, deixe-me explicar melhor…

É fato estrito e coisa certa que vou muito bem.

Minha vida é profundamente simples de viver. Tenho poucas coisas com que me preocupar, não tenho inseguranças: tenho minhas poupanças, previdência privada, plano de saúde e até odontológico. Não me preocupo de perder o emprego ou de pegar febrão ou de cair de boca e perder os dentes: nada disso vai ser mais do que uma dor de cabeça passageira.

No meu cotidiano não preciso ter medo das pessoas que estão andando ao meu lado: não sou interessante para o assaltante, ando mal vestido; não sofro violência policial, sou branco; não tenho medo de ser estuprado, sou homem.

Posso até postar fotos com minha namorada e todo mundo – todo mundo – acha lindo, porque sou heterossexual.

Meu amigo, é fato que nada ameaça meu ciclo vital: tenho certeza que vou comer, dormir e andar em segurança todos os dias. Sei que serei respeitado onde for e que terei várias das experiências que quero ter – vou viajar nas férias e comer naquele restaurante que você falou no final de semana.

E olhe que não sou rico por nenhum critério. Não tenho propriedades, não tenho fazenda, empresa, industria, não sou dono de imprensa, não sou dono de nada além da minha capacidade de trabalhar.

Tenho hoje, porém, absolutamente tudo que um humano de meu tempo pode querer.

Por que diabos eu me importaria em ter qualquer coisa mais: mais dinheiro, mais sucesso?

Eu sei, amigo, você me dirá: mas e a insegurança? E o futuro incerto das crises? E se, Deus me perdoe, uma tragédia acontecer e você não puder trabalhar? E quando você ficar velho?

Ora, que se foda tudo isso!

Poderia colocar meu corpo, minha alma, meus valores e minha existência histórica à disposição de ganhar mais e mais dinheiro e me proteger de tudo isso – só para acabar morto e podre debaixo da terra.

A minha vida está ótima e não precisa de melhora. Aqui está sobrando.

Mas a generosidade da realidade acaba ai, meu amigo.

Em volta de mim, 360 graus, está tudo uma merda, em chamas, aos gritos e ao ranger de dentes.

Nem nas mais criativa distopia da ficção conseguiriam imaginar um mundo tão estúpido, covarde e cheio de mágoas e sofrimento quanto o nosso.

Está instalada uma máquina global esmagadora de sonhos, aspirações e carne que maltrata, mutila, assassina, escraviza e hipnotiza bilhões pessoas e animais. Bilhões, com B.

Estamos destruindo as nossas próprias condições de existência e indo em rumo certo ao apocalipse climático.

Todos os dias genocídios são levados à cabo com robôs e bombas que pulverizam corpos inocentes sem sobrar uma gota de sangue para nos comover.

Nossa comida, fresca, é estragada para produzir porcarias venenosas que são perfumadas para parecerem tragáveis. Enquanto isso ainda, ainda, aindaaaaa tem gente morrendo de fome por toda parte.

Toda essa merda em nome de alguns poderem ficar ricos, que não serve pra nada além de juntar um monte de objetos brilhantes coloridos dentro de salões enormes que só você pode entrar.

Gê-zus. É inacreditável o quanto está ruim.

Mas, olhe amigo, se você perguntar para mim: como vai?

Responderei: estou ótimo.

Que coisa louca, né?

Vou muito bem, obrigado. Tão bem quanto pode estar alguém que vive em uma bolha de privilégios dentro do inferno.

Estou bem, mas a única coisa que passa pela minha cabeça da hora que eu acordo até a hora que eu durmo e durante meus sonhos é como eu vou fazer para destruir a minha bolha, a sua bolha, todas as bolhas e o mundo todo.

Amigo, se você me perguntar: como vai?

Responderei: estou bem.

Mas algo me diz que você vai parar de perguntar.

Indigno de dormir dentro de casa

Quando disseram para fazer, eu fiz. Quando disseram para não fazer, não fiz.

Por trinta anos, obedeci. E nada mudou. A obediência não transforma.

Cá estou em meu apartamento que alguém fez para mim. Subiu quatro paredes, pôs reboco e tinta para eu me sentir bem. Alguém que nem me conhece. Eu me sinto bem, mas eu não sei se quero.

Queria deitar esta noite ao lado daquele homem na rua, que vive na esquina, onde ninguém subiu quatro paredes para abrigá-lo na madrugada.

Mas eu não posso, seria loucura.

Eu encarcerado do lado de dentro pela sanidade. Ele encarcerado do lado de fora pela insanidade.

Um carro passa rasgando o silêncio da madrugada. Aquela vida, que tem um carro, certamente tem paredes para abrigar a si e o carro.

Se eu perguntar para ela, dirá que não estou louco de dormir aqui dentro apesar do homem na rua.

Se eu perguntar ao homem na rua, o que dirá ele de mim?

Trinta anos dormindo do lado de dentro. E nada mudou.

Me pediu umas moedas ontem. Eu dei, na intenção de ajudá-lo. Mas ele não precisa de ajuda, eu preciso. Dou as moedas para ele para que eu me sinta digno de dormir dentro.

Então aqui fico, abrigado, de onde posso vê-lo deitado ao relento da minha janela. Sua existência marca profundamente a minha: me torna indigno.

Ele também pode me ver, mas sequer me olha. Minha existência é irrelevante, sou um mero vetor ocasional de moedas que outras pessoas insignificantes demandam em troca de um prato de comida.

Eu sou o cinza que cobre tudo. Mais um homem dentro de uma caixa. Uma das milhões de caixas de homens que não se importam de vê-lo dormir fora enquanto dormem dentro.

O pão na minha mesa: preciso que protejam o portão para que não o tomem de mim, pois não sou digno dele. A sina da indignidade me escraviza, e cada dia que acordo preciso obedecer tudo e todos para que concordem em proteger meu pão.

Ter tudo, mas não ser digno de nada, te faz se sentir melhor do que não ter nada – mas te escraviza.

Por isso estamos todos dormindo do lado de dentro.

Queria que todos pudessem dormir dentro. Queria um pouco de dignidade.

Como deixar de ser idiota

Deixar de ser idiota é algo complexo e inútil.

A experiência prova que idiotas ganham mais dinheiro, são mais bonitos e mais felizes que não-idiotas. Ainda assim, ninguém quer ser idiota.

Infelizmente, ser idiota parece uma condição assintomática para o portador, de forma que aqueles que são idiotas invariavelmente acreditam não serem idiotas. O primeiro e mais evidente sintoma de ser um idiota é a incapacidade de perceber a idiotice.

Idiotas portanto também não acreditam que outros idiotas são idiotas, e acreditam, pelo contrário, que os não-idiotas são os verdadeiros idiotas. Isso faz com que os idiotas se juntem em grupos de idiotas que se auto consideram não-idiotas.

Um idiota pode ser alertado por um não-idiota de sua situação de idiota, porém, da mesma forma, um não-idiota pode receber incorretamente similar alerta de um idiota. Do ponto de vista de quem está sendo alertado ser um idiota, é impossível saber se o idiota é você ou quem está te alertando.

Alguém pode pensar que ser um idiota logo irá manifestar consequências graves para o idiota, mas engana-se: o mundo protege os idiotas.

Como já dito, por exemplo, os idiotas tem mais dinheiro que os não-idiotas. Pois para ganhar dinheiro você precisa ser idiota! Você precisa aceitar e desempenhar melhor que outros o papel ridículo que lhe foi dado de ser uma engrenagem em uma máquina de moer almas – sorrindo.

Você tem que acordar cedinho, vestir roupinha, ler cartinhas no computador, fazer cartazes com desenhos coloridos no computador, fazer jogral para os coleguinhas, brincar de resolver probleminhas e obedecer o Jorginho.

Tem que ficar no ar condicionado, tomando café quentinho enquanto acha que se esforça mais que os outros. Tem que se auto-intitular workaholic e pagar empregada pra lavar a louça porque tem preguiça.

Ser idiota ajuda muito na escalada do sucesso.

Idiotas são mais bonitos. Estatisticamente falando, um não-idiota qualquer será bonito apenas para uma fração dos não-idiotas, pois cada não-idiota tem uma percepção distinta e única de beleza que reflete sua personalidade. Já um idiota será bonito para todos os idiotas ao mesmo tempo, pois os idiotas assimilam padrões comerciais de beleza e ficam todos bonitinhos, certinhos e penteadinhos uns para os outros.

Idiotas são mais felizes. Enquanto os não-idiotas se vêem melancólicos de viver em um mundo dominado por idiotas, os idiotas por outro lado se vêem realizados por dominarem o mundo.

Se você quer deixar de ser idiota, preciso primeiro que entenda que este é um processo irreversível. Você tem que estar ciente de tudo que estará perdendo. A sua vida de faz-de-conta irá ruir e você desabará no seu próprio vazio existencial.

Você não ganhará nenhum prêmio, o mundo não te dará nada em troca se você deixar de ser idiota. Não tem ganho. Não é um bom negócio. Não entre nessa visando vantagens.

Seu ego será destruído na percepção da vida idiota que levou até aqui. Talvez você não sobreviva à transição. Se sobreviver, chegará do outro lado mais pobre, mais feio e mais triste.

E aí, vai tomar a pílula vermelha?

Se você espera que eu encerre esse texto com uma receita para deixar de ser idiota, sinto decepcioná-lo, caro leitor.

Deixar de ser idiota passa por parar de acreditar que existem receitas para as coisas da vida.

Considere-se iniciado.

Te vejo do outro lado.

Vamos conquistar as estrelas

Nós queremos conquistar as estrelas, eu vi num filme.

Meu corpo envelheceu. A flor da minha mesa está morta. Perdi 9kg esses meses, como o doutor pediu.

E se eu cortasse o meu braço? Um braço cortado não sou mais eu – peso perdido. A morte é como cortar o braço, é tornar uma parte de você não-você – a diferença é que você cortou a última parte.

Perdi 9kg, 9kg que não sou mais eu. Estou morrendo?

Eu não me espantaria se alguém dissesse que framboesa não nasce em árvore – eu realmente não sei.

Queremos conquistar as estrelas, eu vi num filme, mas para que? Eu nunca vi nem uma árvore de framboesas! Tem gente que busca planetas habitáveis em outras estrelas. Parece que todos estamos condenados a foder com esse aqui, então achar nossa rota de fuga é a ordem do dia.

Vamos fugir dos nossos problemas. Da Terra. Da vida. Vamos posar para a foto. Vamos tirar a selfie e dar um sorriso preciso, meticulosamente ajustado no visor do celular. Vamos viver a vida dos outros, e os outros vão viver a nossa – então que pareça boa, mesmo que não seja.

Mas a minha é, por acaso. Por acaso, como em um jogo de dados. Viver a vida real é uma realização constante dos meus privilégios, de como tirei o duplo 6.

Eu tenho muitas coisas que não preciso. A flor da minha mesa. Ela precisava de mim, eu não precisava dela, então a deixei morrer.

Sem aquilo que precisamos, não sobrevivemos. Preciso da água, do pão, da cama e do teto. Mas nada disso vai fazer minha vida valer a pena.

Ainda, a flor. Ela valia a pena.

Queremos conquistar as estrelas, e conhecer novos mundos. O mundo é tão pequeno – alguém disse. Tem avião, tem carro, tem internet.

O mundo é pequeno, disseram. Bom, o box do meu banheiro é pequeno: eu preciso abrir o registro, esperar a água esquentar, fechar o registro para não espirar água no banheiro todo e só depois entrar no box, caso contrário a água gelada atingiria minha pele nua sem que houvesse no box espaço para que eu desviasse do jato.

O meu box é pequeno, mas o mundo é infinito. Pode-se chegar a qualquer lugar do mundo em poucas horas, é verdade. Mas é uma ilusão, um truque. As distâncias parecem curtas porque estamos ignorando tudo no caminho.

Distâncias são unidimensionais. O mundo é multidimensional.

Pode-se ir a qualquer lugar em um dia, mas não se pode ir a todos os lugares em mil vidas. E quando chegasse ao último, o primeiro já será outro, que ainda não viu.

Somos bilhões de humanos, e vamos morrer sem conhecer nem mesmo a nós próprios.

O mundo é infinito e as estrelas são infinitas. Vamos conquistar as estrelas! Mas antes, alguém me diz: como chama a árvore da framboesa?

O vôo de Madalena

Madalena queria ser livre.

Pensou que se a vida é feita de escolhas, boas escolhas faria e boa vida viveria. Que se a vida é feita de esforços e recompensas, muito se esforçaria e os céus conquistaria.

Madalena queria ser como os pássaros. Esses podem voar por volumes ilimitados, pousar onde acham belo, sentir a brisa no rosto, comer das mais doces frutas.

Diferente dos pássaros, Madalena nasceu sem asas. Restrita à mediocridade de ter um nascido em berço comum, em bairro comum, em família comum. Gente comum não voa, rasteja.

Quais seriam as escolhas, então, para Madalena passar de rastejante a alada?

Lhe disseram, desde cedo, que o nobre esforço do estudo e do trabalho premiaria os melhores com asas para alçar tão sonhado vôo e deixar os rastejantes para trás.

A vida correta seria então aquela do suor pingando da testa, das provações e das privações, da poupança e da paciência, pois essa, e somente essa vida, poderia torná-la um dentre os melhores, os mais fortes – os que voam.

Rastejante ainda, precisava de um emprego, um casulo para iniciar sua metamorfose de larva a borboleta.

Em sua primeira entrevista de emprego, o patrão explicou:

– “O salário é de mil e trezentos. Entra as 8 e sai as 5, de Segunda a Sábado. Almoça no refeitório. Tem que vir de social, a não ser de Sexta. Você vai responder para o Mario Mendonça, nosso coordenador. Terá que bater metas que estabeleceremos no começo do semestre. Precisa se integrar com a cultura da empresa e absorver nossos valores.”

O patrão alado tinha escolhido seu salário, seu horário, o que ela iria vestir, o que ela iria comer, o que iria fazer, quem iria obedecer e até que valores iria ter no seu coração. Madalena, rastejante, não pode exigir nada, apenas aceitar ou recusar e ficar desempregada.

Decidiu recusar, ainda assim – era livre e não era obrigada a aceitar essas condições ridículas.

O patrão contratou então Joana, a próxima da fila, que estava com o aluguel vencendo e acabou topando.

É certo que Madalena também precisava do emprego, mas poderia buscar em outro lugar, tinha paciência.

E assim foi, rumo à segunda entrevista:

– “Salário de mil e duzentos e mais vale-refeição. Tem que vir de social, todos os dias…”

Nada feito. Na próxima:

– “Salário de mil e cem, com refeitório no local…”

E em muitas outras:

– “Tem que vir de social…”
– “Novecentos mais cesta básica…”
– “Vai ficar embaixo do Mauro…”

Parecia ser obrigada a aceitar um mal negócio voluntariamente – e achou isso uma idéia sem pé nem cabeça.

Depois de muita busca, viu o seguinte anúncio:

– “Salário de dois mil. Entra às 8 e sai às 5, de Segunda a Sexta. Não precisa vir de social. Em 2 anos poderá virar coordenadora.”

Nada mal! Madalena viu ali uma oportunidade, e não a largaria. Enfim colheria os louros do mérito de sua paciência, perseverança e esforço: trabalharia de jeans, ganharia dois mil e batalharia para virar coordenadora em meras 3.840 horas de trabalho! A glória!

Mas a empresa decidiu, infelizmente, contratar Marcos Lima, porque ele tinha mais experiência.

Humildade era a virtude que lhe faltava, disseram: rastejava de cabeça muito erguida para quem não tinha passado ainda pelos batismos de fogo da experiência profissional.

Abaixou a cabeça, colocou o salto-alto dolorido, o despertador para as 5, subiu no ônibus lotado e atravessou a cidade para trabalhar em um dos mal pagos e odiosos empregos que antes recusara. Almoçou a comida que o patrão ofereceu, fez o que patrão mandou, foi embora a hora que o patrão deixou.

E assim rastejou por 6 de cada 7 dias de sua vida durante anos.

E anos depois, mais experiente, Madalena se candidatou e finalmente conseguiu um emprego naquela empresa que a tinha rejeitado antes.

E agora, ganhando dois mil e pouco e folgando também aos Sábados, se sentiu recompensada. Seu patrão até a deixava usar tênis – quanta generosidade!

E em quatro anos, virou coordenadora. E em mais cinco anos, virou gerente.

Foi gerente do departamento por muitos anos e agora, aos quarenta, com dois filhos, não mais conseguia ter a dedicação que tinha para exceder as metas. Não podia perder o emprego tampouco, pois sabia da dificuldade de arrumar um emprego nessa idade.

Nunca se tornou diretora, muito menos patroa. Seu rastejo tinha atingido sua altura máxima. Para Madalena, isso era o máximo que ela jamais teria na vida – já era.

No seu último dia de trabalho antes de se aposentar, Madalena tomou coragem, entrou na sala do seu patrão e disse:

– Dediquei minha vida a batalhar pelo meu sonho de ser um pássaro, mas mesmo depois de quarenta anos aprendendo a voar, continuei rastejante. Onde foi que eu errei?

E seu patrão respondeu, sábio:

– Para ser um pássaro, não basta aprender a voar. É preciso aprender também a cagar na cabeça dos outros.

Ninguém é pobre

Isso pode vir como uma surpresa para muitos de vocês, mas é a mais pura verdade: ninguém é pobre.

Depois de décadas escutando por aí que a vida é difícil para quem é pobre, pode ser um pouco intragável o fato de que, no fim, não há mesmo ninguém no mundo que seja pobre.

Sempre ouvi falar que gente rica, quando boa de alma, dá seu dinheiro aos pobres. Pois que loucura, que devaneio, dizer uma coisa dessas agora que sabemos que ninguém é pobre. E que ninguém é rico.

E você que sonhou ser rico, que bobagem. Ninguém é rico. Ninguém pode jamais ser rico.

Talvez essa confusão toda seja só um erro tolo de tradução. Veja bem, os norte-americanos dizem:

– Some people are poor.
– Some people are rich.

E é verdade.

Mas quando traduzimos:

– Algumas pessoas são pobres.
– Algumas pessoas são ricas.

Isso já não é verdade, pois sabemos: ninguém é pobre e ninguém é rico.

Essa coisa de achar que o mundo está dividido entre ricos e pobres vem de achar que pobreza e riqueza são características das pessoas. Uma idéia largamente baseada em preconceito e ignorância.

Maria é pobre – disseram.

É mesmo? E onde está a pobreza dela? Nos cabelos? Na pele? Nos traços? No sotaque, na língua? Puro preconceito, Maria não é pobre. Ela é como eu e você: humana, capaz, incrível, portadora do cérebro mais avançado do mundo – talvez do universo.

Maria não precisa de ajuda, não precisa de caridade. Maria não precisa que alguém lhe empreste um sapato. Ela não precisa que alguém lhe estenda a mão. Maria, assim como todo mundo no mundo, não é pobre.

Maria, como quase todo mundo no mundo, está pobre.

Estar pobre ou rico não tem a ver com o que você é – isso não é você, é apenas sua condição. E essa condição é imposta, pasmem, pelos outros que te cercam.

Fosse você sozinho no mundo e não poderia estar pobre nem rico. Poderia pescar em qualquer rio, dormir sob qualquer árvore e plantar em qualquer chão – não poderia ser pobre. Mas não poderia comer peixes que não pescou, dormir sob tetos que não construiu ou colher o que não plantou – não poderia ser rico.

Duas constatações óbvias que algumas pessoas tem dificuldade de aceitar, por motivos emocionais:

– Pobreza e riqueza são invenções humanas.
– Os que estão pobres trabalham para os que estão ricos.

Existe ainda uma outra condição mais degradante que a pobreza: a miséria. Essa é a condição daqueles que foram excluídos completamente do jogo.

Não existe ninguém que seja miserável, tampouco. Ser miserável também não é algo que faz parte de você, é algo imposto a você.

Se você está miserável, não consegue nem trabalhar. Não tem força para arranjar trabalho pois não come direito. Não tem onde tomar banho para ser socialmente aceito em ambiente profissional. Não tem acesso à educação e cultura e será tomado como chucro, ignorante, menos capaz.

A miséria também é uma invenção humana. Toda invenção tem seu propósito, e o papel da miséria é manter os pobres trabalhando para os ricos. Se você já esteve pobre, sabe que o fantasma da miséria te mantém devidamente empregado e sem reclamar, mesmo que estejam te explorando.

Nós humanos já inventamos tantas coisas idiotas: instrumentos de tortura, bombas nucleares, monociclos, impressoras…

Hoje não usamos mais essas coisas. Por que não abrir mão também da pobreza, da riqueza e da miséria – outras invenções idiotas?

É que estar rico é como na música de Dominguinhos e Nando Cordel:

Olha, que isso aqui tá muito bom!
Isso aqui tá bom demais.
Olha, quem tá fora quer entrar!
Mas quem tá dentro não sai.

O céu de São Paulo

– Cara, você precisa enxergar a realidade! – me dizia um jovem que afirmava o Brasil estar rachado ao meio após as eleições de outubro.

Cansado dessa conversa, desliguei o computador e saí no jardim da minha casa para olhar o céu.

Gosto de olhar o céu, ele me acalma. Esta noite ele não tinha nenhuma nuvem. Mas moro em São Paulo, maior cidade do hemisfério sul e maior cidade da América. O progresso nos trouxe as luzes para acender nossas ruas, mas apagou nosso céu: não podemos enxergar muito além das mais brilhantes estrelas, pois a enorme luminosidade que produzimos no chão se dispersa na atmosfera e cria uma camada opaca que nos impede de ver.

Longe da cidade, lá sim, pode-se ver em uma noite escura uma faixa de luz branca que cruza o céu: a Via Láctea, nossa galáxia. É a luz de bilhões de estrelas, tão distantes que não podemos vê-las individualmente, mas que juntas formam uma leve mancha de leite.

É uma bela visão, mas que daqui não é possível admirar. Ao menos pude apreciar, logo acima do horizonte, as Três Marias, um belo arranjo de três estrelas muito brilhantes e quase perfeitamente alinhadas no firmamento.

Os gregos antigos acreditavam que essas estrelas formavam o cinturão de Órion, um grande guerreiro. Ele persegueria as sete belas Plêiades, da constelação de Touro, em uma infinita corrida de leste a oeste todas as noites nos céus, incansável. É uma bela história – gregos olhavam as estrelas e viam deuses e heróis.

Sabemos hoje que estrelas são sóis que ardem por bilhões de anos e morrem em uma magnífica explosão que dá origem a todos os elementos da vida. Somos filhos das estrelas. É uma bela história também – olhamos as estrelas e vemos nossa origem.

A diferença entre os gregos antigos e nós é que, milênios depois, temos acesso a muito mais conhecimento. Sem conhecimento não se enxerga a realidade.

Como os deuses que os gregos viam nos céus, a idéia de que o Brasil rachou ao meio é apenas um mito. Com conhecimento de história se entende que nada é mais normal que pobre votar na esquerda e rico votar na direita. Não é novidade também os ricos tentarem usar a mídia para convencer a classe média a votar na direita junto com eles. Nossa classe média cresceu e a disputa ficou mais acirrada, mas nenhuma rachadura surgiu.

Sentei no computador para responder aquele jovem, quando fui surpreendido por uma nova mensagem:

– São Paulo sustenta o Brasil! Malditos nordestinos! – bradou.

Decidi desistir da discussão. As luzes de São Paulo haviam se dispersado e criado uma camada opaca que o impedia de ver a realidade. Eu poderia tentar apagar uma, dez ou mil lâmpadas, mas milhões outras continuariam ofuscando sua visão.

São Paulo pagou um preço pelo progresso: algumas coisas não se consegue mais enxergar daqui, como a Via Láctea.

Voltei para meu jardim, olhei para o horizonte e, abaixo das Três Marias, na constelação de Órion, nascia Betelgeuse.

Foi reconfortante lembrar que, apesar de tudo, uma estrela supergigante vermelha ainda brilha forte no céu da minha cidade.

Como vim parar aqui

Era um corredor extenso. As paredes eram cobertas de veludo, o chão de um carpete fofo, as portas brancas. Dentre todas as portas, todas iguais, uma se destacava por ter um placa: não entre.

A tentação de entrar só se manifestou sobre essa, a qual abri para uma breve espiada. Não entre, ou entre? Qual era realmente a intenção de quem pôs a placa? Palavras dizem intenções por vezes contrárias.

Abri uma fresta para olhar por dentro. Tinha um jardim verde com um banco de praça. Ora, dentro desse prédio escuro, como poderia se guardar um jardim tão belo?

Intrigado, fechei a porta. Parti para outra, dentre tantas sem placa alguma.

Abri a segunda porta esperando me surpreender, mas encontrei apenas outro corredor, com inúmeras portas. Fechei essa também, não tenho paciência para labirintos.

Na terceira porta, resolvi bater antes de entrar, e fui respondido com “Tem gente!”. Abri mesmo assim, pagando para ver se era o banheiro. Dentro dela encontrei uma família de cachorros jantando um pernil, que se achou desrespeitada e latiu novamente: tem gente, tem gente!

Fechei a porta em respeito aos cães, mas quando olhei em volta, não estava mais no corredor. Estava flutuando em uma nuvem no céu e podia ouvir o som do mar, mas não podia vê-lo.

– Onde está o mar? – gritei.

O mar apareceu com suas barbas molhadas e hálito de peixe e me disse:

– Estou aqui, meu filho, como posso ajudá-lo?

– Tire-me desse sonho sem sentido e me devolva para a realidade!

– É para já!

E foi assim que acordei hoje, no mundo real, onde tudo é previsível e cachorros não falam.

Foi assim que voltei para o mundo onde as portas de corredores escuros não dão em jardins.

Sobre você

Já te disse que você se cobra demais?

Talvez seja fruto desse seu desejo de ser admirado, das pessoas gostarem de você.

Ou talvez seja toda essa sua capacidade que você sabe que tem, mas que não vem usando a seu favor.

Você não é perfeito, mas busca compensar seus defeitos como consegue. Nem todo dia é um bom dia, nem todo dia dá para ser aquilo que esperam de você.

Está sempre tentando parecer seguro e estável, mas por dentro, eu sei: está inseguro e preocupado. Lembra daquela vez em que não soube se o que fez foi certo? Aquela noite fria…

Você achou que não foi uma boa idéia ter se aberto para os outros. Foi ingênuo, tolo.

Ah… como você gosta de pensar por si próprio. Você acha que não é de aceitar a opinião dos outros sem fundamento. Mas por vezes se deixa levar pela empatia, pelo tom de voz. Racional e emocional, você.

Seus sonhos não são lá muito realísticos, convenhamos. Ou você acha mesmo que vai conseguir mudar isso tudo? Não custa tentar, você diria, mas nós sabemos que custa bastante caro.

Você já não é mais o mesmo. Esses dias pensou coisas que nunca tinha pensado antes. Você, mutável.

Você, humano.

Você, igual a mim, igual a ele, igual a todos.

Afinal, onde acaba o você e onde começa o eu?

O infinito abismo que separa nossas almas é atravessado pela infinita ponte das nossas semelhanças.

Você e eu ainda temos mais duas coisas em comum: nós dois nos achamos diferentes. E nós dois estamos enganados.

Sobre você eu sei tudo, pois você sou eu – independente de quem você seja.

O certo de Carla

Carla era pequena ainda, mas já tinha aprendido duas coisas: o certo e o errado.

Entendeu que o certo era aquilo que deveria fazer e que o errado era aquilo que deveria evitar. Não entendeu, no entanto, como descobrir se alguma coisa era certa ou errada – o que mandava toda a teoria por água abaixo.

A cada coisa que fazia, seus pais lhe diziam:

– Está certo, muito bem!

Ou:

– Está errado! Não faça isso!

E aprendeu mil coisas certas e mil coisas erradas com eles. Mas, todo dia, mil coisas novas apareciam. Carla precisava de uma fórmula, uma regra, claro! Assim, a cada nova situação, conseguiria decidir o que era o certo.

Pensou: o certo é aquilo pelo qual vem a recompensa e o errado era aquilo pelo qual vem a punição.

Logo, o dedo na tomada era imediatamente errado, como seus pais lhe diziam. Pareceu uma boa fórmula! Mas e o dedo no bolo?

Ah, o dedo no bolo! Quem nunca? Primeiro, a recompensa de mergulhar os dedos gordinhos no chantilly gelado e de saborear o doce cremoso na lambida. Delícia! Porém, inevitável, o furo será notado e o castigo virá infalível, seja uma semana sem seus brinquedos ou alguns dias sem ir ao parquinho. Houve recompensa e punição para o dedo no bolo, e Carla não soube mais dizer se era certo ou se era errado.

Pensou: o certo é aquilo pelo qual nunca vem uma punição.

Logo, o dedo no bolo era errado, como seus pais diziam. Pareceu uma boa fórmula!

Um dia, na escola, Carla viu um menino mais velho roubar o lanche de um mais novo. Bradou:

– Devolva o lanche dele!

O grandão se virou para ela e lhe deu um pontapé dolorido na canela. Saiu pulando de um pé só para seu cantinho, refletindo sobre ter sido punida por aquilo. Se a punição veio, portanto defender o garotinho foi errado.

Voltou para casa e perguntou para sua mãe o que achava disso, a qual respondeu:

– Minha filha, você fez errado! Não era problema seu, não se meta em confusão.

A regra concordou com o que sua mãe disse e deveria parecer boa. Carla não achou.

Percebeu que o tempo todo só tentou imitar o certo de seus pais. Nesse dia, pela primeira vez, Carla discordou deles e achou que defender o garoto foi certo, definitivamente certo!

E assim cresceu, convencida de que o certo não era mais nada daquilo que seus pais tinham lhe ensinado. Inaugurou seu próprio conceito de certo, o certo de Carla, só seu, indivisível de sua alma.

Não tinha mais um livro de regras, tinha um caderno em branco. Em princípio, encontrou angústia ao pensar que poderia escolher caminhos sombrios para si. Como nos primeiros passos de um detento ao ver a rua pela primeira vez depois de anos, ela teve receio, mas logo percebeu o valor de sua liberdade.

Dizia Protágoras que o ser humano é a medida de todas as coisas. O certo e o errado está dentro das nós. A dor do pontapé foi sentida por Carla, dentro de si. O pontapé foi errado? Sim, para Carla, que sentiu a dor – achou errado. Foi errado para quem a chutou? Talvez sim, seja esse sensível às dores alheias – achou errado, mas o fez assim mesmo.

Fosse Carla sozinha do universo, errado e certo seriam pouco úteis. Sem ninguém para sentir dor, chutar uma pedra não seria errado. Não teria ninguém para matar a fome com o bolo, então não seria errado furá-lo.

Por que precisava de certo e errado, então?

Pensou uma coisa bela: o certo e o errado só existem porque os outros sentem e eu me importo. O certo de Carla, portanto, era bom por princípio, não por imposição.

Carla teve uma vida longa, fez tudo que quis: comeu chocolates, viajou sem rumo, brigou com namorados, largou a faculdade, tocou violão, brincou com cachorros. Teve bons amigos, teve inimigos, amores e filhos, morreu sem realizar seus sonhos, mas realizou um monte de coisas que jamais sonhou.

Carla fez coisas que achou certas, mas achou certo fazer errado de vez em quando também.

E, no final, quem sou eu para dizer que ela estava errada?