Uma carta aberta a Mark Manson

* Em resposta a “Uma carta aberta ao Brasil”

Caro Mark Manson, sou brasileiro e recentemente li sua carta aberta a nosso país.

Logo de início, ela nos alerta que suas posições poderão ofender-nos. Com sorte, esse não foi o caso: não lerá aqui uma carta de alguém ofendido.

O que mais me chama atenção em sua carta é que faz uma avaliação dos problemas de nosso país do ponto de vista de um estrangeiro vindo de um país desenvolvido. Como registro da sua percepção, sua carta é muito interessante.

Como avaliação de nossa realidade, porém, ela carece de profundidade. Sua carta diz mais sobre você e suas crenças do que sobre nosso país.

Mas deixe-me contar um pouco de mim: tenho 29 anos, nasci e vivi minha vida toda em São Paulo e seus entornos. Tive uma infância na classe média, uma adolescência pobre e hoje posso dizer que levo uma vida confortável. Já transitei por muitos círculos sociais, já passei por necessidades financeiras graves e também já viajei pelo mundo. Frequentei escolas na boca da favela e já estudei na maior universidade da América Latina. Já trabalhei em pequenas empresas e em grandes multinacionais, já fui apresentador de TV.

Em São Paulo, vivi um pouco de tudo. Minha visão, porém, é igualmente limitada no seu poder de analisar a realidade.

A realidade não é uma maçã na fruteira que está lá para qualquer um pegar. A realidade é o colapso de infinitas observações sobre o espaço público.

E aqui traçamos a fundamental diferença entre a sua postura e a minha: não tenho pretensão de analisar e fazer afirmações sobre a realidade do Brasil baseado na minha experiência pessoal.

Vivemos em uma época privilegiada da história em que temos ferramentas para compreendê-la para além daquilo que nos é apresentado pela vivência. A ciência da história coleta múltiplos olhares, opiniões e argumentações para compor teorias cuja relevância para compreender a realidade excede em muito o que se faz visível através das aparências.

Voltando ao seu texto, você se propõe a responder uma pergunta: “Por que? Por que o Brasil é tão ferrado? Por que os países na Europa e América do Norte são prósperos e seguros enquanto o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?”

Sua resposta para isso é que nós, brasileiros, somos o problema.

Essa, no entanto, não é uma pergunta nova. Há vasta literatura sobre esta pergunta e muitas teorias já lapidadas pela ciência da história que podem jogar luz na questão. Não sou historiador e não pretendo discorrer sobre as varias vertentes de pensamento que se aprofundam sobre o tema.

Gostaria, no entanto, de destacar uma idéia bastante madura que entra diretamente em conflito com suas conclusões: os fenômenos sociais não são explicados por si próprios. Para entender um fenômeno social, precisa-se entender a infraestrutura desta sociedade, ou seja, a forma como essa sociedade produz e distribui os bens e serviços que suprem as necessidades e desejos de seus pertencentes.

Dito isso, não se pode entender a cultura brasileira sem entender como a infraestrutura do Brasil se desenvolveu em função do tempo. Sendo a sociedade capitalista moderna global, não pode-se entender a infraestrutura brasileira sem entender a infraestrutura global.

O Brasil é um país majoritariamente agrário, fruto de uma colonização longa e extrativista, cuja fundação remete à divisão da terra em unidades hereditárias loteadas pela coroa a membros da nobreza portuguesa. Longa história, nosso país de raízes aristocráticas teve sua independência tardia, sua industrialização ainda mais tardia e até tão recentemente quanto os anos 80 não tinha ainda um governo eleito pelo voto nos moldes do que é chamado de democracia.

Isso coloca o Brasil no grupo dos países cuja competitividade no mercado internacional é limitada, não por incapacidade de seus habitantes de criar ou produzir, mas por condicionamento histórico: nossa infraestrutura não está plenamente desenvolvida, nosso desenvolvimento está atrasado.

Não temos industrias, ferrovias, malhas viárias e universidades em estágio de desenvolvimento similar ao dos países da Europa ou da América do Norte (exceto México).

Insisto em sua pergunta introdutória, onde questiona “Por que (…) o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?” – mas esse não é tampouco um fenômeno local: o capitalismo global tem crises cíclicas. Os Estados Unidos estiveram em crise recentemente, a Europa ainda se recupera da sua. A única diferença é que a crise em um país subdesenvolvido tem consequências mais graves para o povo que em um país desenvolvido.

Olha, meu caro Mark, entendo que deve ser incômodo para um estrangeiro ter que viver sob os traços culturais de um outro povo. Entendo que se irrite que nós esperemos quem está atrasado, que protegemos nossos amigos quando sabemos que ele está errado, que por vezes coloquemos nossa família na frente da sociedade como um todo. Também vejo outros problemas ainda mais graves enraizados na nossa e em outras culturas: machismo, racismo, homofobia, intolerância religiosa etc. Poderei listar um punhado de traços culturais que entendo problemáticos em qualquer povo do mundo que conhecer.

O problema surge quando concluímos que esses traços culturais são a razão última dos problemas sociais.

Não é difícil perceber que o fato de nos atrasarmos para compromissos não tem um impacto na realidade material do país compatível com a dimensão dos nosso problemas. O hábito de esperarmos quem está atrasado ou de sermos vaidosos não pode competir com a desproporção entre o desenvolvimento da nossa infraestrutura e a dos países desenvolvidos com os quais mantemos relações comerciais.

Você diz que o brasileiro não foca sua energia em produtividade. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, fruto do trabalho árduo de milhões nos campos fazendo jornadas de trabalho incansáveis debaixo do sol a troco de migalhas. Como isso se compara com a produtividade de alguém que senta no ar condicionado para responder e-mails oito horas por dia e voltar para casa?

Isso mostra outro aspecto da superficialidade da sua análise: você não conheceu o Brasil dos brasileiros, você simplesmente viveu como privilegiado por aqui. Você não sofreu nossas crises, não passou necessidades e não trabalhou nas nossas lavouras.

Além do mais, você diz que em países desenvolvidos o senso de justiça é mais importante que qualquer indivíduo.

O problema é que seu senso de justiça é um, o meu é outro, e de uma terceira pessoa será outro. Se você viveu sua vida toda sendo beneficiado por uma noção de justiça, talvez tenha dificuldade de enxergar que essa justiça pode não estar sendo justa para outros. Se você, por outro lado, foi massacrado pela mesma noção de justiça, terá pouco estímulo para respeita-la.

Em especial, se você acha justo uns terem carros que custam caro por terem condições de competitividade superiores ou herança de condições materiais favoráveis, e que outros, mesmo que prejudicados financeiramente, terem que trabalhar meses para pagar a franquia do seguro se esse carro, privado, largado e ocupando espaço em uma via pública, for danificado por uma colisão acidental com seu veículo barato, então definitivamente temos sensos de justiça bastante distintos.

Ou se você acha justo que deixemos alguém se desesperar em dívidas como punição educativa por esse ter gastado demais, lembre-se que por aqui um professor ganha menos do que o suficiente para comprar comida e pagar o aluguel e que portanto sua sobrevivência e sua dignidade não podem ser mantidas ao mesmo tempo em que este garante sua segurança financeira. Se acha que essas pessoas são “gastadoras”, seu senso de justiça também difere demais do meu.

Para encerrar, você diz que as coisas aqui não irão melhorar e traça previsões catastróficas para nossos próximos 5-10 anos, falando a nossos jovens que esses irão fracassar, e que a culpa é toda nossa.

Me desculpe, meu caro Mark, mas essa sua condenação determinista e apocalíptica em relação ao nosso futuro eu não vou nem comentar, pois não tenho vocação para astrologia.

Te vejo no próximo carnaval.

 

diegoquinteiro

Meu nome é Diego Moreno Quinteiro, tenho 29 e moro em São Paulo, cidade que amodeio. Gosto de escrever, de colocar vírgulas e de não ligar pra ortografia – então fiz um blog.