Rolezinho

Antes de começar: se você acha que lazer é luxo e que pobre precisa é de trabalho, saia já do meu blog e não volte nunca mais (clique aqui)!

Nessa altura do campeonato, você já sabe que o Shopping JK, um castelo de proporções faraônicas voltado à elite mimada de São Paulo, conseguiu uma liminar para impedir o “Rolezaum Shoppim”, evento organizado pelo Facebook que iria reunir algumas centenas de pobres no local, a exemplo do que aconteceu no Shopping Itaquera.

Eu entendo. O Shopping não um espaço de vivência para a população da cidade, é apenas um templo da religião capitalista, onde os sacerdotes, e apenas esses, vão para desfrutar seus privilégios de clero.

Bah, mentira! Todos sabemos que essa liminar foi feita para garantir a segurança de todos. Por que nós achamos os pobres muito perigosos, principalmente quando esses não estão de cabeça baixa dizendo ‘sim, senhor’ para nós! Sumam com esses pobres e os façam reaparecer apenas às 8h da segunda-feira no chão da fábrica. Ah, mas deixem as mães deles passarem lá em casa para varrer minha sala antes – sabem como é, varrer me faz transpirar e não posso ir cheirando suor para o clube de golf.

Já estive dentro do Shopping JK por duas vezes. Em ambas, encontrei multidões de jovens notavelmente abastados. São apreciadores de boa música, portadores de bons costumes, boas roupas e boa índole, em contraste com pobres funkeiros que falam alto e andam de chinelo, querendo depredar o patrimônio do shopping. Desses eles querem distância. Mas não é preconceito, é que pobre no Brasil é muito mal educado mesmo – vou mudar para a Europa!

Esses jovens patrõezinhos se tornarão futuros poderosos, que dentro deste shopping jamais terão tido contato com o mundo real. E vão emitir outras liminares como essa.

Então não, definitivamente não: eles não tem esse direito. Eu quero mais é ver o circo pegar fogo, que esses jovens se organizem e tomem todos os espaços elitistas que sobrarem, que se tornem um pesadelo para a burguesia podre dessa cidade. Podre por impedir o metrô em higienópolis, por apoiar rampas embaixo dos viadutos para despejar mendigos e podre por mandar bater em professor em passeata. Podre por expulsar adolescentes pobres do shopping.

Como brilhantemente observou um amigo meu, a ignorância de nossas elites em relação às nossas mazelas só se sustenta com a segregação urbana. Se o rico convivesse com o pobre, quem sabe as coisas melhorariam? Mas faltam espaços onde os mundos se encontrem, e sobram espaços onde eles se isolem.

Dito isso, não vejo outra solução: derrubem todas as catracas!

 

diegoquinteiro

Meu nome é Diego Moreno Quinteiro, tenho 29 e moro em São Paulo, cidade que amodeio. Gosto de escrever, de colocar vírgulas e de não ligar pra ortografia – então fiz um blog.