Ricos

Existem dois tipos de ricos: os que as pessoas admiram, e os que as pessoas tem raiva.

O primeiro tipo é fonte de infindável bajulação, são constantemente citados, entrevistados e escrevem livros. Participam de eventos, são entrevistados pelo Jô Soares, contam aos ventos sua trajetória de sucesso, fruto de desmedida capacidade e determinação.

Esse é o rico que todo mundo quer ser.

Mas, convenhamos, ninguém é rico. Todo mundo é pobre.

Vou fazer uma conta de padaria. O Brasil é um país de terceiro mundo – isso você já sabia. O salário mínimo por aqui é de R$678, o que não dá para nada. Em um ano você ganha R$678 x 12 meses, o que dá R$8.136. Para ser mais preciso, somamos o 13o. e 1/3 de adicional de férias, mais talvez 6 reais por dia de vale-transporte e 10 reais de vale-refeição para chegarmos a uma quantia final de R$13069,74 por ano – tã-dã!

Com apenas esse dinheiro, você pode presumir que uma pessoas será muito pobre. Esqueça computador, carro, apartamento ou mesmo comer carne toda semana. Pense em barraco, arroz com farinha e roupas rasgadas, com sorte.

Agora, veja esse site: http://www.globalrichlist.com/. Ele diz o quanto rico você é comparado com o resto do mundo.

Só por curiosidade, coloquei a renda do cara que ganha salário mínimo. Veja o resultado:

Salário mínimo te põe entre os 20% mais ricos do mundo

Sim, quem ganha o salário mínimo no Brasil está entre os 20% mais ricos do mundo. Não, não, não! Pare! Pare tudo e releia:

Quem ganha UM SALÁRIO MÍNIMO está entre os 20% MAIS RICOS DO MUNDO.

É nesse mundo, onde 4 dentre 5 pessoas é mais pobre que todas as pessoas que você provavelmente já conheceu, que te dizem que a coisa mais legal que você pode fazer é ser mais rico que todo mundo. Que tipo de rico você quer ser? Tanto faz, o estrago será o mesmo.

Infelizmente, para existirem ricos, precisam existir pobres. Os recursos são limitados, para um ter demais, outro tem que ter de menos. Para existir um Alexander, precisam existir muitos pobres. E para existir um Justus ou um Eike, precisam existir muitos mais pobres ainda.

No fim, são todos igualmente beneficiários de um sistema que massacra a todos para mimar alguns poucos e, realmente, não me importa se esses são babacas ou gênios, se gastam tudo na balada ou se gastam decorando suas mansões com esculturas, para mim é tudo fútil e supérfluo na mesma medida comparado às necessidades negadas às outras bilhões de pessoas que mal tem onde morar e o que comer.

Se você achou revoltante o Rei do Camarote esbanjando 50 mil reais na balada, deve se revoltar também contra nosso sofisticado sistema de acúmulo de riqueza. Precisa querer por a pirâmide abaixo ao invés de querer subir ao topo dela.

Ou, caso contrário, serei obrigado a concordar com Alexander: é só inveja.