Como pensa uma mente de esquerda?

O ódio só é possível através da ignorância – só se odeia aquilo que não se entende.

A empatia, ou seja, a plena compreensão da situação do outro, é remédio definitivo e infalível para o ódio. Dizemos: “como você pôde?”, “como ele é capaz?”, “o que passou pela cabeça?” – e temos ódio. Em contraste, dizemos: “eu te entendo”, “entendi o seu lado” – e não odiamos mais. De forma que o oposto do ódio não é o amor, mas sim a compreensão, o entendimento e a inteligência.

Vivemos dias sombrios, dias em que o ódio supera a razão. Quando o ódio supera a razão, a ignorância supera a inteligência. E isso dá merda.

E na merda chegamos, em tempo, ao ponto em que você me odeia sem nem me conhecer. Se me odeia, não me entende. Então lhe ofereço a oportunidade, talvez única, de compreender a mente de alguém que pensa diferente de você. Sinceramente, penso que não terá mesmo muitas oportunidades para isso na vida, já que o mundo está mais do que feliz de te oferecer apenas aquelas idéias com as quais você já concorda.

Ouvir aquilo que reafirma o que acreditamos é uma delícia, eu também adoro – confesso!

Sou de esquerda, e é sobre isso que vou falar, pois é o motivo das manifestações de ódio que vem se acentuando de forma preocupante desde as duvidosas marchas de junho de 2013.

Ser de esquerda é, antes de mais nada, acreditar que o mundo é profundamente injusto. Mais do que isso, é acreditar que o mundo é materialmente injusto: os bens, as terras e a comida não são distribuídos de forma justa entre as pessoas. Portanto já concluímos que a mente de esquerda não é conservadora, ou seja, não quer conservar a situação do mundo, mas sim transformá-la em algo mais justo.

Ser de esquerda é, também, ser fundamentalmente descrente de que o livre mercado leve à justiça. Pelo contrário, acreditamos que o livre mercado seja causa das injustiças.

Note que limitar uma liberdade para manutenção da justiça não é um conceito da esquerda, no entanto. Da mesma forma que a maioria de nós acha bom limitar a liberdade de uma pessoa furtar a outra, a esquerda acha bom limitar a liberdade de uma pessoa explorar o trabalho da outra. Por isso, mesmo dentro do capitalismo, defendemos leis trabalhistas (seguro desemprego, 13o., aposentadoria etc) e o fortalecimento das organizações dos trabalhadores (sindicatos), para que as relações de trabalho sejam menos exploratórias.

Ser de esquerda é não acreditar na meritocracia. Acreditamos que o mundo justo que devemos buscar não aquele onde tentamos dar as pessoas aquilo que julgamos que elas merecem.

Primeiro, pela impossibilidade prática: não conseguimos determinar o que as pessoas merecem. Eu mesmo, que me conheço tão bem, caio em crises existenciais sobre se mereço ou não o que tenho – imagina ter que dizer o que outra pessoa merece?

Para isso a esquerda tem uma outra resposta: distribuir a todos conforme sua necessidade. Isso significa, de cara, que todo mundo tem que ter o que comer, onde morar, água para beber e roupas para vestir – pois isso são necessidades humanas universais. Devemos nos organizar como sociedade para garantir que todos tenham isso, antes de qualquer coisa, e, principalmente, independente de mérito.

Na meritocracia, a competição é supervalorizada. Nós da esquerda não acreditamos que as pessoas do mundo partem das mesma condições para competir, pois o mundo possui duas classes sociais distintas: burgueses e trabalhadores.

Os que nascem burgueses tem condições materiais iniciais enormemente vantajosas pois nascem herdeiros de meios de produção (fábricas, terras, empresas etc) nos quais os trabalhadores precisam se submeter às suas regras para trabalhar. Quem nasce trabalhador nasce em condição desvantajosa pois terá que trabalhar em uma empresa e se submeter às condições de um burguês. Raramente um trabalhador se tornará burguês, por isso dizemos que o capitalismo tem baixa mobilidade social. O capitalismo tem a característica de concentrar o capital, e assim cada vez menos pessoas são burgueses e cada vez mais de nós trabalhamos para eles.

O socialismo, uma das principais idéias propositivas da esquerda, é a concepção de uma sociedade em que as classes sociais não existem, e todos trabalham e são donos dos meios de produção coletivamente e simultaneamente. Que fique claro que socialismo não é ditadura, e a tirania como modelo político é algo a qual sou extremamente avesso. Portanto não apoio Stalin e outros tiranos por ser socialista, assim como ser de direita não significa apoiar Hitler, Saddam Hussein, George Bush e outros só porque a Alemanha, Iraque e EUA eram e são países de economia capitalista. Então superemos essa confusão.

Cabe lembrar que o mundo em que vivemos hoje é regido por ideologias de direita. Ser de esquerda, portanto, é uma reflexão sobre como o mundo poderia ser – mas não é. Mesmo sendo de esquerda, vivo no capitalismo e, portanto, tenho que viver sob suas regras e consumir seus produtos, pois não há outros.

Antes que me mandem para Cuba mais uma vez, reflitam se querem viver em um país onde extraditamos pessoas que não concordam conosco. Eu nasci aqui, construí minha vida toda aqui e quero que meu país e meu mundo sejam melhores não só para mim, mas para todos. E exerço meu direito de viver aqui ensejando revolucionar meus entornos – enquanto ainda não é crime pensar livremente.

Você já deve ter concluído que o assunto é complexo e que não pode ser reduzido à simplicidade das emoções.

Então odeie menos e pense mais.

AAAAAAHHHHHH!

AAAAAAHHHHHH!!!

Vamos combinar: todo brasileiro adulto está cientes de que se cometer crimes poder ir pra cadeia. E na cadeia você passa anos se fodendo, sendo molestado, dormindo no chão mijado, cagando em público e comendo gororoba.

Mas isso não é o pior castigo, decididamente. Ir para a cadeia é uma merda, mas muitos não tem esse privilégio: cometer um crime, violento ou não, é frequentemente motivo para você ser assassinado pela polícia. Ladrão não pode vacilar – diria o poeta.

Os brasileiros adultos sabem que se cometerem crimes estão fodidos – ou mortos. E que ninguém estará nem aí para eles, vão querer que eles se explodam.

Mesmo sabendo desse risco, brasileiros adultos continuam cometendo crimes. Muitos crimes. Crime pra caralho!

O que está acontecendo então?

Está acontecendo que os fatos estão contradizendo esse papo furado que nos venderam de que a punição é a resposta para a violência.

A informação sobre isso hoje é tão farta que, em pleno século XXI acreditar que a punição resolve a violência é ser impermeável aos fatos. Não acredita? Vai pesquisar, por que eu não vou ficar fazendo pesquisa pra você, seu preguiçoso.

Vamos parar de falar que punição resolve violência?

Vamos, já?

Obrigado. =)

Agora, defender a redução da maioridade penal como solução para violência é igual colocar uma venda nos olhos, tampar os ouvidos e gritar AAAAAAHHHHHH!!!

Dos 54 países diminuíram a maioridade penal na nossa história recente, nenhum (!) assistiu diminuição na criminalidade. Nenhum. Vamos mudar nossa constituição para criar uma regra que comprovadamente falhou 54 vezes e não foi efetiva nenhuma vez na história.

Isso é uma idéia burra, vingativa, mesquinha. Que vergonha você apoiar isso, hein? QUE VERGONHA!

Se quisermos diminuir a violência, não tem jeito, temos que responder a pergunta: por que as pessoas são violentas?

Por que vocês acham? Degladiem-se nos comentários.

Mas sem violência!

Ninguém é pobre

Isso pode vir como uma surpresa para muitos de vocês, mas é a mais pura verdade: ninguém é pobre.

Depois de décadas escutando por aí que a vida é difícil para quem é pobre, pode ser um pouco intragável o fato de que, no fim, não há mesmo ninguém no mundo que seja pobre.

Sempre ouvi falar que gente rica, quando boa de alma, dá seu dinheiro aos pobres. Pois que loucura, que devaneio, dizer uma coisa dessas agora que sabemos que ninguém é pobre. E que ninguém é rico.

E você que sonhou ser rico, que bobagem. Ninguém é rico. Ninguém pode jamais ser rico.

Talvez essa confusão toda seja só um erro tolo de tradução. Veja bem, os norte-americanos dizem:

– Some people are poor.
– Some people are rich.

E é verdade.

Mas quando traduzimos:

– Algumas pessoas são pobres.
– Algumas pessoas são ricas.

Isso já não é verdade, pois sabemos: ninguém é pobre e ninguém é rico.

Essa coisa de achar que o mundo está dividido entre ricos e pobres vem de achar que pobreza e riqueza são características das pessoas. Uma idéia largamente baseada em preconceito e ignorância.

Maria é pobre – disseram.

É mesmo? E onde está a pobreza dela? Nos cabelos? Na pele? Nos traços? No sotaque, na língua? Puro preconceito, Maria não é pobre. Ela é como eu e você: humana, capaz, incrível, portadora do cérebro mais avançado do mundo – talvez do universo.

Maria não precisa de ajuda, não precisa de caridade. Maria não precisa que alguém lhe empreste um sapato. Ela não precisa que alguém lhe estenda a mão. Maria, assim como todo mundo no mundo, não é pobre.

Maria, como quase todo mundo no mundo, está pobre.

Estar pobre ou rico não tem a ver com o que você é – isso não é você, é apenas sua condição. E essa condição é imposta, pasmem, pelos outros que te cercam.

Fosse você sozinho no mundo e não poderia estar pobre nem rico. Poderia pescar em qualquer rio, dormir sob qualquer árvore e plantar em qualquer chão – não poderia ser pobre. Mas não poderia comer peixes que não pescou, dormir sob tetos que não construiu ou colher o que não plantou – não poderia ser rico.

Duas constatações óbvias que algumas pessoas tem dificuldade de aceitar, por motivos emocionais:

– Pobreza e riqueza são invenções humanas.
– Os que estão pobres trabalham para os que estão ricos.

Existe ainda uma outra condição mais degradante que a pobreza: a miséria. Essa é a condição daqueles que foram excluídos completamente do jogo.

Não existe ninguém que seja miserável, tampouco. Ser miserável também não é algo que faz parte de você, é algo imposto a você.

Se você está miserável, não consegue nem trabalhar. Não tem força para arranjar trabalho pois não come direito. Não tem onde tomar banho para ser socialmente aceito em ambiente profissional. Não tem acesso à educação e cultura e será tomado como chucro, ignorante, menos capaz.

A miséria também é uma invenção humana. Toda invenção tem seu propósito, e o papel da miséria é manter os pobres trabalhando para os ricos. Se você já esteve pobre, sabe que o fantasma da miséria te mantém devidamente empregado e sem reclamar, mesmo que estejam te explorando.

Nós humanos já inventamos tantas coisas idiotas: instrumentos de tortura, bombas nucleares, monociclos, impressoras…

Hoje não usamos mais essas coisas. Por que não abrir mão também da pobreza, da riqueza e da miséria – outras invenções idiotas?

É que estar rico é como na música de Dominguinhos e Nando Cordel:

Olha, que isso aqui tá muito bom!
Isso aqui tá bom demais.
Olha, quem tá fora quer entrar!
Mas quem tá dentro não sai.

Meritocracia, uma lenda urbana

João, o mais rápido corredor, levou a medalha.

Pedro, com pernas mais curtas, bem que se esforçou mais do que João, mas ficou só com a prata.

Epa, alto lá! Pedro merecia o ouro de João?

Não sei, fosse Pedro mais esperto, sendo baixinho, não teria entrado nessa de corrida. Mérito, eta coisa difícil de medir.

Merece mais quem é mais apto ou merece mais quem mais se esforça?

Melhor: merece mais o mais esperto, que escolhe bem seus esforços! Pedro que nasceu baixinho, mas escolheu correr, ficou com a prata. Quem mandou ser burro?

Mas para escolher ser burro você já tem que ser burro antes, porque escolher ser burro é burrice. Se você era burro antes de escolher ser burro, então você não escolheu ser burro em primeiro lugar. Entendeu? Não? É burro também?

Calma, sem ofensas, senta aí! Ninguém escolhe ser burro, isso é uma coisa que acontece com a gente.

É isso: ser burro acontece. Com todos nós. Com uns mais do que com outros.

Se você é burro, a única coisa que merecia era ser mais inteligente. Então vem comigo que você vai passar de ano.

Pedro, que foi burro, quis correr mesmo sendo baixinho, só porque gosta.

Já João não gosta de correr, mas corre bem pra caralho! Ganhou a medalha, mas passa os dias correndo sem gostar. Burro também.

João, Pedro! Venham cá, já: tomem uma medalha para cada um. Cansei, não dá para brincar de meritocracia com vocês.

Meritocracia a gente tem que aplicar quando todos partem das mesmas condições. É isso: coloque todos nas mesmas condições e dê a partida. Todos alinhados no começo da pista até ouvirem o disparo da largada. Se você e eu partimos exatamente das mesmas condições, o que vai definir o resultado está dentro de nós – meritocracia!

Pensando bem, a gente não escolhe tudo que está dentro de nós, já viemos ao mundo com algumas coisas. Outras aprendemos com nossos pais, que não escolhemos. Outras absorvemos de nossa cultura, que não escolhemos também. Xiii…

E agora? O que a gente realmente escolhe? Nada?

Quer dizer então que eu estou vagando na existência como um robô e que não decido uma maldita coisa na minha vida inteira?!

Já chega desse papo, não faz sentido, vou é dar uma mijada!

Ta aí: eu escolhi mijar. Ufa! Finalmente uma escolha: senti vontade de mijar e decidi ir.

Mas eu não decidi ter vontade. Será que eu decidi ir mijar ou foi só a minha bexiga me controlando como uma marionete?

Meu Deus, EU SOU UMA MARIONETE DA MINHA BEXIGA!

Como posso merecer algo, se nem decido o que eu faço?

Então não podem me responsabilizar também: vou sair daqui e matar mil! Eu juro! Vou sair na rua com uma faca e enfiar na barriga do primeiro que eu ver, pois sou eu um robô, não tinha escolha, o universo quis, a culpa não é minha, foi o destino!

Hunf!

Ok. Quem eu quero enganar?

Eu sou uma pessoa controlada, pacífica. Eu sou assim: impossível eu tomar uma decisão que eu não tomaria.

Ahá! Esse é o pulo do gato: eu escolhi ser assim! Eu poderia ter escolhido o caminho das trevas, mas eu escolhi a luz! Pronto: o meu mérito está nas escolhas que eu tomo por ser a pessoa que eu escolhi ser.

No fundo, fui eu quem escolhi tudo, pois escolhi ser o que sou, escolhi ser o tipo de pessoa que toma as decisões que eu tomo.

Quando foi mesmo que escolhi o que sou?

Acho que foi aos 5. Isso mesmo, aos 5 anos, eu me lembro. Foi aos 5 que decidi ser a pessoa que sou, uma pessoa de bem, uma pessoa honrada e linda. Foi uma sábia decisão.

Que garoto de 5 anos bonzinho eu era para decidir uma coisa dessas, né?

Não! Eu ja era bonzinho, droga! Para decidir ser uma pessoa de bem, você já tem que ser uma pessoa de bem antes.

Está certo: ser uma pessoa boa é como ser burro: acontece. Com alguns mais do que com outros.

Esse negócio de meritocracia está mesmo furado. Ficar julgando o que as pessoas merecem é um erro, pois cada ato de cada um é só uma consequência de tudo que um aprendeu, de tudo que um viveu e do jeito que um nasceu.

Não há meritocracia, afinal, não há mérito.

Agora que superamos esse engano, podemos seguir em frente para construir um mundo onde damos às pessoas aquilo que elas precisam?

Sim?

Obrigado.

O céu de São Paulo

– Cara, você precisa enxergar a realidade! – me dizia um jovem que afirmava o Brasil estar rachado ao meio após as eleições de outubro.

Cansado dessa conversa, desliguei o computador e saí no jardim da minha casa para olhar o céu.

Gosto de olhar o céu, ele me acalma. Esta noite ele não tinha nenhuma nuvem. Mas moro em São Paulo, maior cidade do hemisfério sul e maior cidade da América. O progresso nos trouxe as luzes para acender nossas ruas, mas apagou nosso céu: não podemos enxergar muito além das mais brilhantes estrelas, pois a enorme luminosidade que produzimos no chão se dispersa na atmosfera e cria uma camada opaca que nos impede de ver.

Longe da cidade, lá sim, pode-se ver em uma noite escura uma faixa de luz branca que cruza o céu: a Via Láctea, nossa galáxia. É a luz de bilhões de estrelas, tão distantes que não podemos vê-las individualmente, mas que juntas formam uma leve mancha de leite.

É uma bela visão, mas que daqui não é possível admirar. Ao menos pude apreciar, logo acima do horizonte, as Três Marias, um belo arranjo de três estrelas muito brilhantes e quase perfeitamente alinhadas no firmamento.

Os gregos antigos acreditavam que essas estrelas formavam o cinturão de Órion, um grande guerreiro. Ele persegueria as sete belas Plêiades, da constelação de Touro, em uma infinita corrida de leste a oeste todas as noites nos céus, incansável. É uma bela história – gregos olhavam as estrelas e viam deuses e heróis.

Sabemos hoje que estrelas são sóis que ardem por bilhões de anos e morrem em uma magnífica explosão que dá origem a todos os elementos da vida. Somos filhos das estrelas. É uma bela história também – olhamos as estrelas e vemos nossa origem.

A diferença entre os gregos antigos e nós é que, milênios depois, temos acesso a muito mais conhecimento. Sem conhecimento não se enxerga a realidade.

Como os deuses que os gregos viam nos céus, a idéia de que o Brasil rachou ao meio é apenas um mito. Com conhecimento de história se entende que nada é mais normal que pobre votar na esquerda e rico votar na direita. Não é novidade também os ricos tentarem usar a mídia para convencer a classe média a votar na direita junto com eles. Nossa classe média cresceu e a disputa ficou mais acirrada, mas nenhuma rachadura surgiu.

Sentei no computador para responder aquele jovem, quando fui surpreendido por uma nova mensagem:

– São Paulo sustenta o Brasil! Malditos nordestinos! – bradou.

Decidi desistir da discussão. As luzes de São Paulo haviam se dispersado e criado uma camada opaca que o impedia de ver a realidade. Eu poderia tentar apagar uma, dez ou mil lâmpadas, mas milhões outras continuariam ofuscando sua visão.

São Paulo pagou um preço pelo progresso: algumas coisas não se consegue mais enxergar daqui, como a Via Láctea.

Voltei para meu jardim, olhei para o horizonte e, abaixo das Três Marias, na constelação de Órion, nascia Betelgeuse.

Foi reconfortante lembrar que, apesar de tudo, uma estrela supergigante vermelha ainda brilha forte no céu da minha cidade.

Entre a esperança e o retrocesso

A campanha eleitoral deste ano está disputadíssima, com números muito próximos para os candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves. A decisão, muito provavelmente, será voto por voto, com pequenas e individuais medidas de cada um dos simpatizantes de cada um dos lados contando muito.

Por isso, mesmo com críticas até mesmo duras ao governo atual, mas tendo em vista que o projeto do PSDB é muito pior (algumas justificativas mais abaixo, devidamente fundamentadas), posiciono-me abertamente e me empenho em tentar convencer amigos, parentes e conhecidos a votarem pela manutenção de Dilma Rousseff na Presidência da República.

Pois creio que, conforme vou tentar demonstrar abaixo, seguimos numa linha de progresso (ainda que tímido), e o que Aécio e o PSDB propõem pode representar um retrocesso.

Denúncias seletivas de corrupção

Tem rolado pela internet (Facebook, blogs diversos e inúmeras redes sociais) vídeos e imagens tentando desconstruir a imagem de Aécio Neves, que, ao que parece, segue intocado pela mídia. Há relações conhecidas entre Aécio e a família de Zezé Perrella, que teve um helicóptero apreendido com mais de 400 kg de cocaína (link para matéria aqui http://bit.ly/1z562DC). O governo de Minas, na gestão do candidato tucano, teria construído um aeroporto com dinheiro público em terreno particular de sua família (link para matéria aqui http://abr.ai/1vHHo89).

Nenhum dos itens acima tem ganhado destaque na mídia, ao contrário da delação premiada da Petrobrás que, com fatos ainda a serem apurados, são martelados o tempo todo nos noticiários e associados ao PT. Imagine você, que por acaso topa com este texto aí pelo Facebook, se Dilma ou qualquer pessoa do PT é compadre de alguém pego realizando tráfico de drogas… qual você acha que seria o destaque nos jornais? E no caso do aeroporto feito com recursos públicos?

Para que não fique dúvidas, saiba você que até tapioca no valor de oito reais já foi investigado pelos maiores noticiários do nosso país (“crime” associado ao PT), e que José Serra tentou, em 2010, acusar o PT de tê-lo tentado matar com uma letal bolinha de papel atirada por um militante do partido (fez tomografia e ocupou diversos minutos do Jornal Nacional). Não resta dúvidas de que, portanto, nossa grande imprensa tem um lado, e omite denúncias de corrupção contra Aécio Neves, e centra todo o seu fogo apenas em denúncias contra o PT.

Se você, que não gosta de ler os famosos “blogs sujos” para formar sua opinião sobre política (entendendo que eles são tendenciosos em favor do Partido dos Trabalhadores), também não deveria formá-la através da nossa chamada grande imprensa. Ela também escolheu um lado, ainda que diga que não. O que os blogs e redes sociais fazem é tentar mostrar um outro lado, numa luta desigual entre uma grande estrutura de mídia e iniciativas muitas vezes individuais, blogs pequenos e textos como este que você lê agora.

Mas a questão não é essa. Mesmo que Aécio Neves fosse a Madre Teresa de Calcutá (e ele não é), ainda assim me oporia de maneira veemente ao seu projeto de país, às suas ideias em relação à política e à economia. Vamos falar sobre desigualdade social.

Dois projetos de país, dois resultados diferentes

Tomo, por base, este artigo (link http://bit.ly/ZoAN5E) para que se compreenda um pouco melhor a questão. Gostaria de destacar o seguinte trecho:

“Dentro das propostas discutidas no âmbito das eleições presidenciais, vemos de um lado uma ideia de continuidade do processo [de redução das desigualdades]. Por outro lado, pelas questões colocadas como prioritárias pela oposição ao atual governo, percebe-se grande ênfase na redução da inflação e em um ajuste fiscal. Quais seriam, então, os efeitos disso sobre a desigualdade de renda?”

O artigo, muito mais elaboradamente do que eu, sustenta aquilo que é também a minha visão: a política econômica do PSDB é brutal contra a população mais pobre e aumenta as desigualdades sociais. A resposta, para a questão acima, é aumento de juros e contenção de gastos públicos. Vamos ver o que o economista autor do artigo diz sobre isso:

“Um aumento dos juros, historicamente elevados, favorece os ganhos financeiros daqueles que possuem riqueza prévia acumulada, contribuindo para um aumento da concentração de renda. Com o aumento de juros e a consequente necessidade de se pagar mais sobre a dívida pública, o prometido ajuste fiscal deve se dar via corte de gastos da área social.”

Não é difícil perceber, portanto, como essa política econômica é só mais um meio de as parcelas mais privilegiadas continuarem acumulando riqueza. É o processo que aconteceu historicamente no Brasil. Este processo foi interrompido parcialmente nas gestões Lula e Dilma, que colocaram o social como eixo estruturante do desenvolvimento. O que quer dizer: a política econômica tem que ser feita para que se melhore o bem-estar social da população e não o bem-estar social da população estar sujeito aos ajustes fiscais e econômicos! É uma lógica totalmente oposta.

Para não ficar apenas no blablablá, vamos ver um exemplo prático de como isso acontece. Na Europa, as medidas para a contenção da crise foram as que pregam o PSDB, que são as medidas de corte acima mencionadas, as chamadas “medidas de austeridade fiscal”. Vejamos ainda o que diz o economista no artigo acima:

“Temos nos dias de hoje o exemplo claro dos países da Zona do Euro, que recorreram à austeridade fiscal e encontram sérias dificuldades para retomada do crescimento e altíssimas taxas de desemprego.”

Podemos ver hoje uma situação muito difícil na Europa por conta dessas medidas. O desemprego entre os jovens é altíssimo, para ficar apenas num dado. Olhe o que diz esta recente matéria, do dia 8 de outubro:

“O número de desempregados na Europa alcança um patamar recorde, sobretudo entre os jovens, um fenômeno que afeta uma geração inteira que não estuda nem trabalha”. (link http://bit.ly/1w2t74a).

Vemos que se trata de países desenvolvidos, como Espanha, França, Alemanha e Itália. Mesmo estes países foram à lona com a crise internacional e, por conta de suas medidas de austeridade, de cortes na economia, pioraram ainda mais a situação social da população. Os próprios países reconhecem isso, conforme a reunião da cúpula que trata o tema (relatado na matéria):

“Se todo mundo se dedica a aplicar medidas de austeridade, será registrada uma queda maior do crescimento”, advertiu o presidente francês. Hollande quer reavivar o debate sobre a austeridade depois da divulgação dos últimos indicadores econômicos, com resultados desastrosos”.

Em 2008, quando estourou a crise econômica internacional a partir dos Estados Unidos (dita uma das maiores crises da história do capitalismo), o Brasil tomou medidas que são contrárias à “filosofia” econômica pregada pelo PSDB e, como mostra o exemplo acima, pelos países da Zona do Euro. Este link (http://bit.ly/1w2t74a) mostra algumas dessas medidas. Gostaria de destacar dois pontos: política de juros e superávit primário.
Sobre juros, algumas medidas do governo brasileiro em 2008 (retirado do link acima):

“Para atenuar a crise, destacam-se ainda várias ações monetárias e creditícias que contribuíram para aumentar a liquidez na economia, resultando na diminuição da taxa de juros real em 2009, tais como a redução dos depósitos compulsórios do sistema bancário e o aumento da oferta de crédito”.

Economês à parte, o que se quer dizer é: os juros baixaram e a oferta de crédito aumentou. O que isso significa? O dinheiro continuou circulando e a economia continuou a produzir, as empresas continuaram a empregar, as pessoas continuaram a consumir (empresas continuaram vendendo, portanto, mantendo os seus lucros e os empregos). Com menos juros, o impacto é menor na dívida pública e sobra mais dinheiro para o que o povo precisa (educação, saúde etc).

Agora vamos às medidas relativas ao superávit primário. Mas o que é superávit primário? A palavra é horrível, mas quer dizer apenas o que o país economiza para pagar juros da dívida. Vejamos o que o governo Lula fez em 2008 e que está dentro da noção da administração atual, de desenvolvimento econômico com caráter social:

“Quanto à política fiscal, as medidas anticrise decorrentes de redução de tributos e aumentos de despesas governamentais resultaram na redução do superávit primário da União, cuja proporção do PIB caiu de 2,45% para 1,29% de 2008 para 2009”.

Traduzindo aproximadamente o que foi falado acima: o governo não economizou para pagar dívidas; continuou investindo na economia real, que gera empregos, e não fez cortes na área social, que diminui a pobreza. É o contrário do que o PSDB faz: ele aumenta o superávit primário e os juros, retirando recursos da economia real, da produção (que gera empregos), das políticas sociais, dando para os bancos e instituições financeiras.

O resultado? O Brasil foi um dos menos afetados pela crise financeira de 2008, preservando emprego, salários e conquistas sociais. Alguns artigos que comprovam isso (links http://glo.bo/ZoFRao http://bbc.in/1rrahiF).

Ainda que o debate econômico seja complicado, cheio de termos técnicos e de pontos levantados pelos dois lados em disputa, uma coisa é certa: a política econômica proposta pelo PSDB é um meio de concentrar mais riquezas e de privilegiar aqueles que já são privilegiados. É algo que está na contramão do que tem sido feito nos últimos anos, diminuindo desigualdades e aumentando oportunidades. É, portanto, um retrocesso.

O importante é melhorar a vida das pessoas, tornar a nossa existência mais justa e mais humana. A economia, no sentido acima colocado, não pode estar acima do próprio ser humano. Quando se fala em “ajustes fiscais” para salvar a economia, na verdade está se falando em tirar dinheiro da educação, da saúde, da economia produtiva e do bolso do trabalhador, para dar para uma casta muito privilegiada, de gente que se beneficia do mercado financeiro. É isso que está por trás deste discurso.

Por isso é que eu me oponho a ele e apoio a candidatura de Dilma Rousseff.


Por Gabriel Moreno

Como vim parar aqui

Era um corredor extenso. As paredes eram cobertas de veludo, o chão de um carpete fofo, as portas brancas. Dentre todas as portas, todas iguais, uma se destacava por ter um placa: não entre.

A tentação de entrar só se manifestou sobre essa, a qual abri para uma breve espiada. Não entre, ou entre? Qual era realmente a intenção de quem pôs a placa? Palavras dizem intenções por vezes contrárias.

Abri uma fresta para olhar por dentro. Tinha um jardim verde com um banco de praça. Ora, dentro desse prédio escuro, como poderia se guardar um jardim tão belo?

Intrigado, fechei a porta. Parti para outra, dentre tantas sem placa alguma.

Abri a segunda porta esperando me surpreender, mas encontrei apenas outro corredor, com inúmeras portas. Fechei essa também, não tenho paciência para labirintos.

Na terceira porta, resolvi bater antes de entrar, e fui respondido com “Tem gente!”. Abri mesmo assim, pagando para ver se era o banheiro. Dentro dela encontrei uma família de cachorros jantando um pernil, que se achou desrespeitada e latiu novamente: tem gente, tem gente!

Fechei a porta em respeito aos cães, mas quando olhei em volta, não estava mais no corredor. Estava flutuando em uma nuvem no céu e podia ouvir o som do mar, mas não podia vê-lo.

– Onde está o mar? – gritei.

O mar apareceu com suas barbas molhadas e hálito de peixe e me disse:

– Estou aqui, meu filho, como posso ajudá-lo?

– Tire-me desse sonho sem sentido e me devolva para a realidade!

– É para já!

E foi assim que acordei hoje, no mundo real, onde tudo é previsível e cachorros não falam.

Foi assim que voltei para o mundo onde as portas de corredores escuros não dão em jardins.

Sobre você

Já te disse que você se cobra demais?

Talvez seja fruto desse seu desejo de ser admirado, das pessoas gostarem de você.

Ou talvez seja toda essa sua capacidade que você sabe que tem, mas que não vem usando a seu favor.

Você não é perfeito, mas busca compensar seus defeitos como consegue. Nem todo dia é um bom dia, nem todo dia dá para ser aquilo que esperam de você.

Está sempre tentando parecer seguro e estável, mas por dentro, eu sei: está inseguro e preocupado. Lembra daquela vez em que não soube se o que fez foi certo? Aquela noite fria…

Você achou que não foi uma boa idéia ter se aberto para os outros. Foi ingênuo, tolo.

Ah… como você gosta de pensar por si próprio. Você acha que não é de aceitar a opinião dos outros sem fundamento. Mas por vezes se deixa levar pela empatia, pelo tom de voz. Racional e emocional, você.

Seus sonhos não são lá muito realísticos, convenhamos. Ou você acha mesmo que vai conseguir mudar isso tudo? Não custa tentar, você diria, mas nós sabemos que custa bastante caro.

Você já não é mais o mesmo. Esses dias pensou coisas que nunca tinha pensado antes. Você, mutável.

Você, humano.

Você, igual a mim, igual a ele, igual a todos.

Afinal, onde acaba o você e onde começa o eu?

O infinito abismo que separa nossas almas é atravessado pela infinita ponte das nossas semelhanças.

Você e eu ainda temos mais duas coisas em comum: nós dois nos achamos diferentes. E nós dois estamos enganados.

Sobre você eu sei tudo, pois você sou eu – independente de quem você seja.

O certo de Carla

Carla era pequena ainda, mas já tinha aprendido duas coisas: o certo e o errado.

Entendeu que o certo era aquilo que deveria fazer e que o errado era aquilo que deveria evitar. Não entendeu, no entanto, como descobrir se alguma coisa era certa ou errada – o que mandava toda a teoria por água abaixo.

A cada coisa que fazia, seus pais lhe diziam:

– Está certo, muito bem!

Ou:

– Está errado! Não faça isso!

E aprendeu mil coisas certas e mil coisas erradas com eles. Mas, todo dia, mil coisas novas apareciam. Carla precisava de uma fórmula, uma regra, claro! Assim, a cada nova situação, conseguiria decidir o que era o certo.

Pensou: o certo é aquilo pelo qual vem a recompensa e o errado era aquilo pelo qual vem a punição.

Logo, o dedo na tomada era imediatamente errado, como seus pais lhe diziam. Pareceu uma boa fórmula! Mas e o dedo no bolo?

Ah, o dedo no bolo! Quem nunca? Primeiro, a recompensa de mergulhar os dedos gordinhos no chantilly gelado e de saborear o doce cremoso na lambida. Delícia! Porém, inevitável, o furo será notado e o castigo virá infalível, seja uma semana sem seus brinquedos ou alguns dias sem ir ao parquinho. Houve recompensa e punição para o dedo no bolo, e Carla não soube mais dizer se era certo ou se era errado.

Pensou: o certo é aquilo pelo qual nunca vem uma punição.

Logo, o dedo no bolo era errado, como seus pais diziam. Pareceu uma boa fórmula!

Um dia, na escola, Carla viu um menino mais velho roubar o lanche de um mais novo. Bradou:

– Devolva o lanche dele!

O grandão se virou para ela e lhe deu um pontapé dolorido na canela. Saiu pulando de um pé só para seu cantinho, refletindo sobre ter sido punida por aquilo. Se a punição veio, portanto defender o garotinho foi errado.

Voltou para casa e perguntou para sua mãe o que achava disso, a qual respondeu:

– Minha filha, você fez errado! Não era problema seu, não se meta em confusão.

A regra concordou com o que sua mãe disse e deveria parecer boa. Carla não achou.

Percebeu que o tempo todo só tentou imitar o certo de seus pais. Nesse dia, pela primeira vez, Carla discordou deles e achou que defender o garoto foi certo, definitivamente certo!

E assim cresceu, convencida de que o certo não era mais nada daquilo que seus pais tinham lhe ensinado. Inaugurou seu próprio conceito de certo, o certo de Carla, só seu, indivisível de sua alma.

Não tinha mais um livro de regras, tinha um caderno em branco. Em princípio, encontrou angústia ao pensar que poderia escolher caminhos sombrios para si. Como nos primeiros passos de um detento ao ver a rua pela primeira vez depois de anos, ela teve receio, mas logo percebeu o valor de sua liberdade.

Dizia Protágoras que o ser humano é a medida de todas as coisas. O certo e o errado está dentro das nós. A dor do pontapé foi sentida por Carla, dentro de si. O pontapé foi errado? Sim, para Carla, que sentiu a dor – achou errado. Foi errado para quem a chutou? Talvez sim, seja esse sensível às dores alheias – achou errado, mas o fez assim mesmo.

Fosse Carla sozinha do universo, errado e certo seriam pouco úteis. Sem ninguém para sentir dor, chutar uma pedra não seria errado. Não teria ninguém para matar a fome com o bolo, então não seria errado furá-lo.

Por que precisava de certo e errado, então?

Pensou uma coisa bela: o certo e o errado só existem porque os outros sentem e eu me importo. O certo de Carla, portanto, era bom por princípio, não por imposição.

Carla teve uma vida longa, fez tudo que quis: comeu chocolates, viajou sem rumo, brigou com namorados, largou a faculdade, tocou violão, brincou com cachorros. Teve bons amigos, teve inimigos, amores e filhos, morreu sem realizar seus sonhos, mas realizou um monte de coisas que jamais sonhou.

Carla fez coisas que achou certas, mas achou certo fazer errado de vez em quando também.

E, no final, quem sou eu para dizer que ela estava errada?

Me descreva em uma palavra: gordo

Me descreva em uma palavra e dirá: gordo. Todos meus outros aspectos serão irrelevantes. Quem é Diego? É aquele gordo!

Certo dia, nesse mesmo blog, dois comentários conflitantes sobre mim:

  • O que você tem de gordo você tem de burro
  • O que você tem de gordo você tem de inteligente

Sou burro? Sou inteligente? Penso que sou inteligente, alguns discordam – é um debate aberto. Só temos que tomar cuidado para não esquecermos que sou gordo. Nunca.

Hipócritas alguns dirão se preocupar com minha saúde. Não se preocupam comigo aqueles que molham suas críticas insossas no saboroso molho do preconceito. Como o estuprador que beija a vítima, como o senhor que poupa o escravo do tronco, a opressão sempre tenta se discursar de amor, mas tanto oprimido quanto opressor sabem.

Me descreva em uma palavra e dirá aquilo vê de mais importante, um resumo, um colapso da minha existência em um único ponto, como uma estrela que se demole espetacularmente sobre si mesma. A supernova de meu ser lançaria no espaço minha alma por completo, todos os meus feitos, meus ossos e cabelos, restando apenas aquilo que de mais essencial se vê em mim: um gordo é sempre resumido à sua gordura.

Uma dia, meu irmão me contou sobre a língua dos índios antigos. Dizia ele que os tupis não podiam entender a expressão “minha árvore” pois para estes era inconcebível alguém possuir uma árvore: uma pessoa possui mãos, pés, orelhas, mas não árvores. Como poderia a árvore ser minha se ela está separada do meu corpo?

Tolos somos nós que acreditamos possuir coisas que existem independente de nós simplesmente porque conseguimos controlá-las. Você irá morrer e aquele seu espremedor de laranja que você nunca usou continuará existindo inútil e ignorante de sua morte – você nunca o possuiu, você só o controlou.

Seu corpo, porém, será sempre seu e nunca de outro, sua única e intransferível propriedade. Quando tentam controlar seu corpo, acreditam possuí-lo, como um espremedor de laranja.

Gordo então sou de direito, que vim ao mundo de boca e pança e meu corpo me pertence. Por que se incomodam tanto com isso?

Talvez meu tamanho seja grande demais para caber em suas mentes diminutas.