O céu de São Paulo

– Cara, você precisa enxergar a realidade! – me dizia um jovem que afirmava o Brasil estar rachado ao meio após as eleições de outubro.

Cansado dessa conversa, desliguei o computador e saí no jardim da minha casa para olhar o céu.

Gosto de olhar o céu, ele me acalma. Esta noite ele não tinha nenhuma nuvem. Mas moro em São Paulo, maior cidade do hemisfério sul e maior cidade da América. O progresso nos trouxe as luzes para acender nossas ruas, mas apagou nosso céu: não podemos enxergar muito além das mais brilhantes estrelas, pois a enorme luminosidade que produzimos no chão se dispersa na atmosfera e cria uma camada opaca que nos impede de ver.

Longe da cidade, lá sim, pode-se ver em uma noite escura uma faixa de luz branca que cruza o céu: a Via Láctea, nossa galáxia. É a luz de bilhões de estrelas, tão distantes que não podemos vê-las individualmente, mas que juntas formam uma leve mancha de leite.

É uma bela visão, mas que daqui não é possível admirar. Ao menos pude apreciar, logo acima do horizonte, as Três Marias, um belo arranjo de três estrelas muito brilhantes e quase perfeitamente alinhadas no firmamento.

Os gregos antigos acreditavam que essas estrelas formavam o cinturão de Órion, um grande guerreiro. Ele persegueria as sete belas Plêiades, da constelação de Touro, em uma infinita corrida de leste a oeste todas as noites nos céus, incansável. É uma bela história – gregos olhavam as estrelas e viam deuses e heróis.

Sabemos hoje que estrelas são sóis que ardem por bilhões de anos e morrem em uma magnífica explosão que dá origem a todos os elementos da vida. Somos filhos das estrelas. É uma bela história também – olhamos as estrelas e vemos nossa origem.

A diferença entre os gregos antigos e nós é que, milênios depois, temos acesso a muito mais conhecimento. Sem conhecimento não se enxerga a realidade.

Como os deuses que os gregos viam nos céus, a idéia de que o Brasil rachou ao meio é apenas um mito. Com conhecimento de história se entende que nada é mais normal que pobre votar na esquerda e rico votar na direita. Não é novidade também os ricos tentarem usar a mídia para convencer a classe média a votar na direita junto com eles. Nossa classe média cresceu e a disputa ficou mais acirrada, mas nenhuma rachadura surgiu.

Sentei no computador para responder aquele jovem, quando fui surpreendido por uma nova mensagem:

– São Paulo sustenta o Brasil! Malditos nordestinos! – bradou.

Decidi desistir da discussão. As luzes de São Paulo haviam se dispersado e criado uma camada opaca que o impedia de ver a realidade. Eu poderia tentar apagar uma, dez ou mil lâmpadas, mas milhões outras continuariam ofuscando sua visão.

São Paulo pagou um preço pelo progresso: algumas coisas não se consegue mais enxergar daqui, como a Via Láctea.

Voltei para meu jardim, olhei para o horizonte e, abaixo das Três Marias, na constelação de Órion, nascia Betelgeuse.

Foi reconfortante lembrar que, apesar de tudo, uma estrela supergigante vermelha ainda brilha forte no céu da minha cidade.