Meritocracia, uma lenda urbana

João, o mais rápido corredor, levou a medalha.

Pedro, com pernas mais curtas, bem que se esforçou mais do que João, mas ficou só com a prata.

Epa, alto lá! Pedro merecia o ouro de João?

Não sei, fosse Pedro mais esperto, sendo baixinho, não teria entrado nessa de corrida. Mérito, eta coisa difícil de medir.

Merece mais quem é mais apto ou merece mais quem mais se esforça?

Melhor: merece mais o mais esperto, que escolhe bem seus esforços! Pedro que nasceu baixinho, mas escolheu correr, ficou com a prata. Quem mandou ser burro?

Mas para escolher ser burro você já tem que ser burro antes, porque escolher ser burro é burrice. Se você era burro antes de escolher ser burro, então você não escolheu ser burro em primeiro lugar. Entendeu? Não? É burro também?

Calma, sem ofensas, senta aí! Ninguém escolhe ser burro, isso é uma coisa que acontece com a gente.

É isso: ser burro acontece. Com todos nós. Com uns mais do que com outros.

Se você é burro, a única coisa que merecia era ser mais inteligente. Então vem comigo que você vai passar de ano.

Pedro, que foi burro, quis correr mesmo sendo baixinho, só porque gosta.

Já João não gosta de correr, mas corre bem pra caralho! Ganhou a medalha, mas passa os dias correndo sem gostar. Burro também.

João, Pedro! Venham cá, já: tomem uma medalha para cada um. Cansei, não dá para brincar de meritocracia com vocês.

Meritocracia a gente tem que aplicar quando todos partem das mesmas condições. É isso: coloque todos nas mesmas condições e dê a partida. Todos alinhados no começo da pista até ouvirem o disparo da largada. Se você e eu partimos exatamente das mesmas condições, o que vai definir o resultado está dentro de nós – meritocracia!

Pensando bem, a gente não escolhe tudo que está dentro de nós, já viemos ao mundo com algumas coisas. Outras aprendemos com nossos pais, que não escolhemos. Outras absorvemos de nossa cultura, que não escolhemos também. Xiii…

E agora? O que a gente realmente escolhe? Nada?

Quer dizer então que eu estou vagando na existência como um robô e que não decido uma maldita coisa na minha vida inteira?!

Já chega desse papo, não faz sentido, vou é dar uma mijada!

Ta aí: eu escolhi mijar. Ufa! Finalmente uma escolha: senti vontade de mijar e decidi ir.

Mas eu não decidi ter vontade. Será que eu decidi ir mijar ou foi só a minha bexiga me controlando como uma marionete?

Meu Deus, EU SOU UMA MARIONETE DA MINHA BEXIGA!

Como posso merecer algo, se nem decido o que eu faço?

Então não podem me responsabilizar também: vou sair daqui e matar mil! Eu juro! Vou sair na rua com uma faca e enfiar na barriga do primeiro que eu ver, pois sou eu um robô, não tinha escolha, o universo quis, a culpa não é minha, foi o destino!

Hunf!

Ok. Quem eu quero enganar?

Eu sou uma pessoa controlada, pacífica. Eu sou assim: impossível eu tomar uma decisão que eu não tomaria.

Ahá! Esse é o pulo do gato: eu escolhi ser assim! Eu poderia ter escolhido o caminho das trevas, mas eu escolhi a luz! Pronto: o meu mérito está nas escolhas que eu tomo por ser a pessoa que eu escolhi ser.

No fundo, fui eu quem escolhi tudo, pois escolhi ser o que sou, escolhi ser o tipo de pessoa que toma as decisões que eu tomo.

Quando foi mesmo que escolhi o que sou?

Acho que foi aos 5. Isso mesmo, aos 5 anos, eu me lembro. Foi aos 5 que decidi ser a pessoa que sou, uma pessoa de bem, uma pessoa honrada e linda. Foi uma sábia decisão.

Que garoto de 5 anos bonzinho eu era para decidir uma coisa dessas, né?

Não! Eu ja era bonzinho, droga! Para decidir ser uma pessoa de bem, você já tem que ser uma pessoa de bem antes.

Está certo: ser uma pessoa boa é como ser burro: acontece. Com alguns mais do que com outros.

Esse negócio de meritocracia está mesmo furado. Ficar julgando o que as pessoas merecem é um erro, pois cada ato de cada um é só uma consequência de tudo que um aprendeu, de tudo que um viveu e do jeito que um nasceu.

Não há meritocracia, afinal, não há mérito.

Agora que superamos esse engano, podemos seguir em frente para construir um mundo onde damos às pessoas aquilo que elas precisam?

Sim?

Obrigado.

 

diegoquinteiro

Meu nome é Diego Moreno Quinteiro, tenho 29 e moro em São Paulo, cidade que amodeio. Gosto de escrever, de colocar vírgulas e de não ligar pra ortografia – então fiz um blog.

 

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