Mais um post daquele gordo

Tinha acabado de fazer minhas compras e estava indo até o caixa para deixar até as minhas calças e sair devendo. No caminho, fui afunilado como gado para um estreito corredor. De um lado, uma miríade de balas, Doritos, Fandangos, latinhas de Coca-Cola e Milkbars disfarçados de Lolo. Do outro, revistas com mulheres magras nuas, com mulheres magras dando dicas para emagrecer, com mulheres magras ricas e, é claro, com mulheres magras famosas.

Nesse cabo-de-força, puxa para um lado, puxa para o outro, você pode comprar a revista ou o chocolate, mas sempre sairá perdendo. Você pode até comprar os dois: se entupir de chocolate e depois fazer regime – quem nunca? Ainda assim, quem ganha é a Nestlé, a Abril e o Carrefour, nunca você.

Parece um consenso que a pior coisa que você pode dizer para uma mulher é que ela está gorda. Eu já acho que a pior coisa que você pode dizer para uma mulher é que a pior coisa que ela pode ouvir é que está gorda.

Eu sou gordo, sei lá, desde meus 12 anos. Nem preciso dizer pra vocês, pois é óbvio, que ser gordo foi motivo de bullying, de preconceito, de repetidos ataques à minha auto-estima e de completa rejeição afetiva na minha adolescência.

Ser obeso pode ser um problema de saúde, como tantos outros que você pode ter – motivo de preocupação, mas nunca de vergonha. Se for apenas um problema de saúde, talvez você não queira trocar o açúcar que engorda pelo adoçante que dá câncer. Mas é muito mais do que isso…

Gordos são sujos e fedem, gordos são atrapalhados e desleixados, gordos são bobos, gordos são irresponsáveis, inaptos, incapazes, não são dignos de confiança e roubam o lanche dos outros! Está namorando uma mulher gorda – não achou nada melhor? Está namorando um cara gordo – deve ser rico! Gordos são indignos de amor e é vergonhoso amar um deles: só pode ser muito mal gosto, segundas intenções ou falta de opções!

Se tivesse ganhado um real cada vez que ouvi uma porcaria dessas na vida, eu seria o Rei do Camarote! Tudo isso é falado sem cerimônia, todos os dias, em todas os lugares: na mídia, no almoço do trabalho, nas salas de aula e dentro da sua casa.

Depois, justificam que gordos não se amam. Mas é claro, pois foi isso que foi ensinado: não amarás obesos – nem a si mesmo! O preconceito se retro-alimenta, como o pobre que é dito menos capaz depois de ter sido negado a ele acesso ao ensino que o qualificaria, como a mulher que é dita fraca depois de ter sido criada como uma princesa do sapatinho de cristal.

No fim, todos os preconceitos são parecidos – mulheres, negros, pobres e gays irão se identificar. O preconceito é cruel e faz muito mais mal pra saúde do que os quilos a mais.

Pior do que morrer jovem por doenças relacionadas à obesidade, é sofrer a vida inteira com o preconceito das pessoas que te cercam.

Ainda não existe regime que cure o preconceito dos outros.