Indigno de dormir dentro de casa

Quando disseram para fazer, eu fiz. Quando disseram para não fazer, não fiz.

Por trinta anos, obedeci. E nada mudou. A obediência não transforma.

Cá estou em meu apartamento que alguém fez para mim. Subiu quatro paredes, pôs reboco e tinta para eu me sentir bem. Alguém que nem me conhece. Eu me sinto bem, mas eu não sei se quero.

Queria deitar esta noite ao lado daquele homem na rua, que vive na esquina, onde ninguém subiu quatro paredes para abrigá-lo na madrugada.

Mas eu não posso, seria loucura.

Eu encarcerado do lado de dentro pela sanidade. Ele encarcerado do lado de fora pela insanidade.

Um carro passa rasgando o silêncio da madrugada. Aquela vida, que tem um carro, certamente tem paredes para abrigar a si e o carro.

Se eu perguntar para ela, dirá que não estou louco de dormir aqui dentro apesar do homem na rua.

Se eu perguntar ao homem na rua, o que dirá ele de mim?

Trinta anos dormindo do lado de dentro. E nada mudou.

Me pediu umas moedas ontem. Eu dei, na intenção de ajudá-lo. Mas ele não precisa de ajuda, eu preciso. Dou as moedas para ele para que eu me sinta digno de dormir dentro.

Então aqui fico, abrigado, de onde posso vê-lo deitado ao relento da minha janela. Sua existência marca profundamente a minha: me torna indigno.

Ele também pode me ver, mas sequer me olha. Minha existência é irrelevante, sou um mero vetor ocasional de moedas que outras pessoas insignificantes demandam em troca de um prato de comida.

Eu sou o cinza que cobre tudo. Mais um homem dentro de uma caixa. Uma das milhões de caixas de homens que não se importam de vê-lo dormir fora enquanto dormem dentro.

O pão na minha mesa: preciso que protejam o portão para que não o tomem de mim, pois não sou digno dele. A sina da indignidade me escraviza, e cada dia que acordo preciso obedecer tudo e todos para que concordem em proteger meu pão.

Ter tudo, mas não ser digno de nada, te faz se sentir melhor do que não ter nada – mas te escraviza.

Por isso estamos todos dormindo do lado de dentro.

Queria que todos pudessem dormir dentro. Queria um pouco de dignidade.

 

diegoquinteiro

Meu nome é Diego Moreno Quinteiro, tenho 29 e moro em São Paulo, cidade que amodeio. Gosto de escrever, de colocar vírgulas e de não ligar pra ortografia – então fiz um blog.

 

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