Como pensa uma mente de esquerda?

O ódio só é possível através da ignorância – só se odeia aquilo que não se entende.

A empatia, ou seja, a plena compreensão da situação do outro, é remédio definitivo e infalível para o ódio. Dizemos: “como você pôde?”, “como ele é capaz?”, “o que passou pela cabeça?” – e temos ódio. Em contraste, dizemos: “eu te entendo”, “entendi o seu lado” – e não odiamos mais. De forma que o oposto do ódio não é o amor, mas sim a compreensão, o entendimento e a inteligência.

Vivemos dias sombrios, dias em que o ódio supera a razão. Quando o ódio supera a razão, a ignorância supera a inteligência. E isso dá merda.

E na merda chegamos, em tempo, ao ponto em que você me odeia sem nem me conhecer. Se me odeia, não me entende. Então lhe ofereço a oportunidade, talvez única, de compreender a mente de alguém que pensa diferente de você. Sinceramente, penso que não terá mesmo muitas oportunidades para isso na vida, já que o mundo está mais do que feliz de te oferecer apenas aquelas idéias com as quais você já concorda.

Ouvir aquilo que reafirma o que acreditamos é uma delícia, eu também adoro – confesso!

Sou de esquerda, e é sobre isso que vou falar, pois é o motivo das manifestações de ódio que vem se acentuando de forma preocupante desde as duvidosas marchas de junho de 2013.

Ser de esquerda é, antes de mais nada, acreditar que o mundo é profundamente injusto. Mais do que isso, é acreditar que o mundo é materialmente injusto: os bens, as terras e a comida não são distribuídos de forma justa entre as pessoas. Portanto já concluímos que a mente de esquerda não é conservadora, ou seja, não quer conservar a situação do mundo, mas sim transformá-la em algo mais justo.

Ser de esquerda é, também, ser fundamentalmente descrente de que o livre mercado leve à justiça. Pelo contrário, acreditamos que o livre mercado seja causa das injustiças.

Note que limitar uma liberdade para manutenção da justiça não é um conceito da esquerda, no entanto. Da mesma forma que a maioria de nós acha bom limitar a liberdade de uma pessoa furtar a outra, a esquerda acha bom limitar a liberdade de uma pessoa explorar o trabalho da outra. Por isso, mesmo dentro do capitalismo, defendemos leis trabalhistas (seguro desemprego, 13o., aposentadoria etc) e o fortalecimento das organizações dos trabalhadores (sindicatos), para que as relações de trabalho sejam menos exploratórias.

Ser de esquerda é não acreditar na meritocracia. Acreditamos que o mundo justo que devemos buscar não aquele onde tentamos dar as pessoas aquilo que julgamos que elas merecem.

Primeiro, pela impossibilidade prática: não conseguimos determinar o que as pessoas merecem. Eu mesmo, que me conheço tão bem, caio em crises existenciais sobre se mereço ou não o que tenho – imagina ter que dizer o que outra pessoa merece?

Para isso a esquerda tem uma outra resposta: distribuir a todos conforme sua necessidade. Isso significa, de cara, que todo mundo tem que ter o que comer, onde morar, água para beber e roupas para vestir – pois isso são necessidades humanas universais. Devemos nos organizar como sociedade para garantir que todos tenham isso, antes de qualquer coisa, e, principalmente, independente de mérito.

Na meritocracia, a competição é supervalorizada. Nós da esquerda não acreditamos que as pessoas do mundo partem das mesma condições para competir, pois o mundo possui duas classes sociais distintas: burgueses e trabalhadores.

Os que nascem burgueses tem condições materiais iniciais enormemente vantajosas pois nascem herdeiros de meios de produção (fábricas, terras, empresas etc) nos quais os trabalhadores precisam se submeter às suas regras para trabalhar. Quem nasce trabalhador nasce em condição desvantajosa pois terá que trabalhar em uma empresa e se submeter às condições de um burguês. Raramente um trabalhador se tornará burguês, por isso dizemos que o capitalismo tem baixa mobilidade social. O capitalismo tem a característica de concentrar o capital, e assim cada vez menos pessoas são burgueses e cada vez mais de nós trabalhamos para eles.

O socialismo, uma das principais idéias propositivas da esquerda, é a concepção de uma sociedade em que as classes sociais não existem, e todos trabalham e são donos dos meios de produção coletivamente e simultaneamente. Que fique claro que socialismo não é ditadura, e a tirania como modelo político é algo a qual sou extremamente avesso. Portanto não apoio Stalin e outros tiranos por ser socialista, assim como ser de direita não significa apoiar Hitler, Saddam Hussein, George Bush e outros só porque a Alemanha, Iraque e EUA eram e são países de economia capitalista. Então superemos essa confusão.

Cabe lembrar que o mundo em que vivemos hoje é regido por ideologias de direita. Ser de esquerda, portanto, é uma reflexão sobre como o mundo poderia ser – mas não é. Mesmo sendo de esquerda, vivo no capitalismo e, portanto, tenho que viver sob suas regras e consumir seus produtos, pois não há outros.

Antes que me mandem para Cuba mais uma vez, reflitam se querem viver em um país onde extraditamos pessoas que não concordam conosco. Eu nasci aqui, construí minha vida toda aqui e quero que meu país e meu mundo sejam melhores não só para mim, mas para todos. E exerço meu direito de viver aqui ensejando revolucionar meus entornos – enquanto ainda não é crime pensar livremente.

Você já deve ter concluído que o assunto é complexo e que não pode ser reduzido à simplicidade das emoções.

Então odeie menos e pense mais.