Como não explicar o terrorismo

Frente aos atentados na França, muita gente acordou para o fato de que existe guerra e terror no mundo. É muito mais real a percepção da crueldade quando ela acontece “do lado de cá da cerca” e não em países onde “as pessoas lá se matam mesmo”.

Antes, alguns dados sobre o terror que o lado de cá da cerca proporcionou ao lado de lá:

  • Os bombardeios nucleares no Japão em 1945 mataram mais de 100 mil civis instantaneamente.
  • A guerra no Vietnam usou agentes químicos que estima-se terem causado 400 mil mortes e 500 mil nascimentos com deficiências.
  • Na guerra “contra o terror” no Afeganistão, aproximadamente 26 mil civis foram mortos.
  • Na guerra do Iraque, aproximadamente 66 mil civis foram mortos.

Como podem ver, terror não é coisa recente, é uma pratica do Ocidente há muitos anos. Mas quando é do lado de lá, nossa mente imagina bombas explodindo no desertos e levantando areia, talvez um tiro limpo no peito de um soldado. Quando é do lado de cá, imaginamos bombas desmembrando corpos de pessoas inocentes. Não se engane: os milhares de civis mortos nos terrores acima citados também foram pessoas inocentes cujos corpos foram despedaçados, mutilados e violentamente destruídos.

Muita gente começou a teorizar sobre o porque do terror ter se voltado contra Paris. E muita gente se propôs explicar os eventos, tarefa difícil e muito frequentemente feita sem nenhuma responsabilidade. Irei no sentido contrário, vou me limitar a eliminar explicações:

O terror não se explica pela religião: 1.5 bilhões de pessoas seguem o Islã, e não estão matando ninguém. Dizer que a religião dá conta de explicar atentados terrorista sustenta um discurso preconceituoso que justifica injustiças em políticas de imigração e até guerras ainda mais cruéis do que os atentados que as precederam. Essa reação já está acontecendo e aguarde por ver ainda mais corpos afogados nas praias da Europa e mais corpos despedaçados na Síria.

O terror não se explica por falta de forças de segurança: a França é uma das maiores potências bélicas da Europa. Os EUA, que foram alvos de atentados por várias vezes, são a maior potência bélica da história da humanidade. A falta de proteção nunca explica um ataque, mas esse discurso sem sentido também é fabricado para justificar investimentos cada vez maiores em máquinas de guerra e para privilegiar candidaturas fascistas por todo mundo.

O terror não se explica por falta de vigilância. Não será vigiando todas as conversas do mundo que atingiremos a paz. Pagaremos um preço muito alto se aceitarmos que nos vigiem sob o pretexto de nos protegerem, distopia esta explorada vastamente na literatura e no cinema, porém pouco levada a sério na prática. No fim, apenas outra explicação fabricada para justificar a revogação de direitos civis e a implantação de um panóptico global que suprima não o terrorismo, mas qualquer tentativa de contestação da ordem pelo próprio povo.

O terror não se explica pela insanidade de indivíduos. É também comum culpar o indivíduo por toda sorte de fenômenos sociais. Pessoas que se explodem para matar outras podem ser considerada loucas, mas não foi a loucura quem as motivou. O que as motivou foi, pasmem, o motivo. Esse mesmo motivo que não encontramos na sua insanidade, nem na sua religião, nem na falta de vigilância, nem na falta de segurança.

Os motivos só poderão ser revelados após profunda análise histórica e política – não podem ser entendidos pela superfície. As explicações, as razões, vivem lá em baixo, no fundo, na infra-estrutura, nas perversões do poder, do nosso poder e dos poderes que sustentamos.

A explicação está lá no fundo do armário, onde a gente não quer mexer, porque sabemos que vai nos custar caro.

 

diegoquinteiro

Meu nome é Diego Moreno Quinteiro, tenho 29 e moro em São Paulo, cidade que amodeio. Gosto de escrever, de colocar vírgulas e de não ligar pra ortografia – então fiz um blog.