Como eu imprimi uma maçã na Lua

Essa semana eu escrevi um texto fantasioso em forma de notícia que convidava você a imaginar uma empreitada da NASA para imprimir imagens na Lua como se fosse um outdoor. Leia aqui antes de prosseguir: NASA quer estampar a Lua em 2018.

Apple será a primeira marca da história a ser estampada na Lua

Foi um desafio pessoal: se eu conseguisse te convencer que iriam imprimir o logo da Apple na Lua, eu conseguiria te convencer de qualquer coisa.

Com mais de 2 mil likes no Facebook e muitos comentários raivosos, ficou claro que muita gente caiu na pegadinha. Mas como é possível? Será que as pessoas acreditam mesmo em qualquer coisa? Bom, se você fizer tudo direitinho, acreditam sim. É isso que me preocupa.

Penso que se eu saísse na rua dizendo que a NASA iria estampar a Lua, dariam risada na minha cara. Convencer alguém vai muito além de ter uma boa história.

Para ganhar credibilidade, eu formatei o post como se fosse uma notícia de jornal. É onde nós cometemos o primeiro erro, ao atribuir veracidade a coisas escritas como notícias. Isso abre um precedente muito perigoso, pois dá a quem controla os noticiários o poder de entrar em nossa mente e plantar a verdade que lhes interessa.

Quem nunca disse que algo “é verdade, pois vi no jornal”? Essa idéia de que jornal não mente e que as notícias são fontes de privilegiada confiabilidade é um grande engodo. E isso se aplica aos grandes meios de comunicação em geral, como TV, rádio, revistas etc. Esses veículos são tocados por homens, a comando de outros homens. Os humanos mentem, principalmente pra defender seus interesses.

Para piorar, eu inventei um link para o site da NASA que cai em uma página quebrada. As vezes nos convencemos apenas por citarem a fonte, mas não checamos.

Lição número 1: não acredite só porque é notícia.
– Toda notícia deve ter fontes, investigue-as! A verdade não é nada fácil de descobrir.

Para enriquecer mais a minha inofensiva mentirinha, usei outra técnica comum para enganar o desconfiômetro, conhecida como argumento de autoridade. Consiste em citar opiniões de ditos especialistas para aumentar sua credibilidade.

No meu caso, inventei dois especialista que, em diferentes partes do texto, que comentavam sobre a faraônica façanha. Uma simples pesquisa no Google era suficiente para descobrir que ambos os cientistas eram, na verdade, personagens do jogo de videogame Bioshock Infinite. Adoro esse jogo!

Normalmente você não terá essa chance: será um especialista de verdade e ainda assim o que ele diz será tudo mentira. Especialistas também mentem, outras vezes se enganam, outras vezes as palavras deles são tiradas de contexto. Mais vezes ainda, nem citam nomes, dizem apenas “especialistas confirmam que bla bla blé”, sem citar ninguém que você possa investigar.

Lição número 2: não acredite só porque foi dito por especialistas.
– Se algo é realmente consenso entre especialistas, uma rápida pesquisa será suficiente para revelar muitos especialistas diferentes e independentes falando sobre o assunto. Dica: não há consenso sobre muitas coisas no mundo.

Outras vezes, citam experimentos e pesquisas de universidades ou de grandes laboratórios. Muitas pesquisas chegam a conclusões equivocadas, muitas são manipuladas, tantas outras encomendadas por interesses privados. A ciência está a serviço dos homens, mas, como tantas outras coisas, por vezes está a serviço de só alguns deles.

Lição número 3: não acredite só porque é ciência.
– É possível checar se várias pesquisas e experimentos independentes chegaram a mesma conclusão. Dica: muitas vezes não chegam.

Em uma história sobre como seria possível fazer a absurda impressão, disse que iriam mandar escavadeiras para a Lua que removeriam a camada de areia clara revelando o solo mais escuro abaixo e assim desenhariam na Lua. Mandar escavadeiras para lá pode ser caro, mas seria preciso mandá-las apenas uma vez, já que eram alimentadas por luz solar e controladas remotamente.

Essa história é maluca, mas, ao chegar nesse ponto do texto, muitas pessoas já estavam convencidas que era tudo verdade. Nossa mente tem um conhecido desvio para confirmar coisas das quais já estamos convencidos, conhecido como desvio para confirmação. Quando acreditamos em algo, damos muito mais valor aos indícios a favor do que aos contra. Se você acreditar que chove mais às quartas-feiras, toda vez que chover de quarta vai dizer “tá vendo?”, mas não dará muita importância aos dias em que chover de terça, ou às quartas que forem secas.

Lição número 4: suas próprias verdades te enganam.
– Leve em conta que você pode estar inconscientemente querendo confirmar algo em que já acredita.

Eu disse que o solo lunar profundo era mais escuro pois era rico em ferro. É verdade que as manchas mais escuras da Lua são feitas mesmo de solo rico em ferro. Disse que projetar uma imagem era impossível, pois não podemos concorrer com a luminosidade do Sol. Isso é verdade também. Falei que a impressão era uma boa alternativa pois Lua fica sempre com a mesma face virada para nós. É verdade, pode reparar.

Misturar verdade com mentira, distorcer conhecimentos científicos ou inventar verdades que parecem científicas para justificar conclusões é a prática da pseudociência. Como a ciência é algo complexo e de difícil acesso, a nossa falta de conhecimento de muitas áreas nos deixa desarmado contra essas manipulações.

Exemplos de pseudociência são a astrologia, a idéia de design inteligente e o espiritismo científico. Todos vão parecer idênticos a ciência quando apresentado a leigos, mas não são ciência.

As conclusões científicas são derivadas de provas e experimentos. Você pode reproduzir muitos desses experimentos na sua casa: seus equipamentos eletrônicos são experimentos vivos que comprovam diversas teorias da física. Da mesma forma, quando sua dor de cabeça passa ao tomar um comprimido, você está comprovando diversas teorias da química e da biologia.

Tudo na ciência é teoria. Se um dia as coisas passarem a cair para cima, descartaremos a teoria da gravitação e desenvolveremos outra. Testamos essas teorias continuamente e em condições cada vez mais extremas para tentar refutá-las. A ciência é sobre refutar teorias continuamente, mas isso não significa que as teorias sejam mentira, apenas que elas não se aplicam a todos os casos.

A gravidade de Newton é uma elegante teoria que funciona perfeitamente para determinar a queda de um copo no chão e para determinar a trajetória de Saturno em torno do Sol – é uma teoria fantástica! No entanto, no meio do século passado, Einstein desenvolveu uma teoria da gravidade que vale tanto para o copo, quanto para Saturno, quanto para a luz.

A teoria de Einstein é mais precisa e mais abrangente que a teoria de Newton, mas a de Newton continua funcionando e ainda é usada na maioria dos casos práticos, como na construção de um prédio ou de uma máquina. Já para seu GPS funcionar, você precisa usar a teoria de Einstein. No mundo subatômico, nenhuma das duas teorias funciona. Isso é ciência.

Lição número 5: nem tudo que parece ciência é ciência.
– A ciência é extremamente convincente, assim como a pseudociência. Para separar uma coisa da outra, precisamos analisar os métodos usados e a lógica aplicada nas conclusões.

Enquanto minha mentira foi inofensiva, outras são perigosas. Enquanto minha mentira foi escrachada, outras são muito mais sutis e factíveis. Eu e você somos enganados o tempo todo.

Não acredite tão fácil. Nem nas minhas verdades, nem nas suas próprias.