Nascido em 4 de julho

Nasci errado, que não queria ter nascido, e fui fruto cirúrgico de algumas camadas de tecido humano dilacerados e pacientemente costurados para minha estréia.

Aos 5 anos eu era uma massa bochechuda e descontrolada de carne, contexto em que fui tragicamente atropelado pelo meu vizinho na rua de casa ao tentar alcançar o outro lado da rua por meus próprios meios, sem sucesso.

Sobrevivente, aos 7 resolvi que seria uma boa idéia unir com um grampo de metal os dois buracos da tomada. Por que separados, afinal? E ganhei uma mão enfaixada pra brincar de múmia.

Tinha um poço em casa onde eu milagrosamente jamais caí, como seria de meu feitio. Gostava de descascar a tinta do muro dos fundos do quintal pra tentar recriar o mapa mundi. Dos mesmos fundos de quintal eu decolei em meu primeiro sonho de voar, entrando pela janela da cozinha e acordando prematuramente por não conseguir desviar da torneira.

Na unica partida de beisebol que disputei na minha vida, busquei obstinado apanhar a bolinha que meu irmão lançou e que encontrou seu destino em minha mão direita, alguns centímetros além da porta de vidro. Para minha infelicidade, a porta estava fechada. Para infelicidade da porta, eu não notei. Como vingança, reduziu-se à pequenos estilhaços que perfuraram impiedosamente a fina pele do meu braço.

Com 8 anos, eu estava confiante de que havia conseguido finalmente montar um videogame à partir da embalagem de meu relógio à prova d’água. Alguns botões desenhados e um recorte pra entrada dos cartuchos e voilà, um videogame construído do zero. Nunca consegui jogá-lo, por motivo de meu pai ter recusado-se a ligá-lo na TV, o que era uma tarefa terrivelmente complexa pra mim.

Comecei então a depositar todas as minhas esperanças na promoção do Toddy que sortearia 1 Mega Drive. Eu nunca tinha visto um na minha frente, mas a pequena foto impressa na embalagem do achocolatado me fascinava de uma forma que eu jamais senti de novo. Acordei por repetidas vezes na madrugada e me aventurei sozinho para a escura e colossalmente gigantesca cozinha de minha casa em busca da embalagem que teria a foto do então objeto mais desejado de toda a minha vida.

Esse último episódio marcou profundamente meu caráter, me ensinando que nada se ganha, que o fascínio pode ser perigoso, que os videogames são fantásticos e que o Toddy empelota. Meu Mega Drive veio só no aniversário, mas veio, antes tarde do que nunca, e fui feliz para sempre…

Cultura é coisa de vagabundo!

A extinção do Ministério da Cultura não é mero acidente de percurso na gestão Temer, é a representação máxima de sua ideologia.

A ideologia deste conluio que tomou o poder é a ideologia de que o povo é e deve ser uma força produtiva – e nada mais. Cada homem e cada mulher do povo do nosso país, conforme esta ideologia, deve trabalhar o máximo que puder e da forma mais eficiente possível para produzir riquezas e voltar para casa para dormir. Pausas para comer e usar o banheiro devem ser evitadas! É o Taylorismo levado à níveis nacionais: o povo é gado, o povo não deve pensar, não deve decidir, deve apenas trabalhar. E por isso passa, claro, a ideia do povo não precisar de cultura.

De outro lado, a alta classe média e a elite, debruçada sobre trabalhos administrativos e prestação de serviços – trabalhos que desde Aristóteles são considerados privilegiados pois “desgastam menos o corpo” -, terão para si a missão de consumir esses bens sorrindo. Se quiserem cultura, podem sempre assistir um filme americano ou viajar para Disney – do povo brasileiro só precisam da servidão, a cultura não lhes agrada. Vão construir em torno de si muros para se separar do povo e impedi-lo de contestar o poder.

Temer não estava apenas interessado em desviar 0,38% do orçamento destinado à cultura para a especulação financeira. Isso é um desdobramento conveniente, mas não o motivo central do desmonte. O motivo real é a construção de uma sociedade servil que trabalhe de cabeça baixa – e muito, por muito pouco – para alimentar a atrasada, mofada e podre aristocracia brasileira da qual Temer e seus amigos do uísque fazem parte.

É um golpe egoísta, violento e ignorante. A ignorância e o atraso vencem hoje a cultura e o desenvolvimento.

Ah, e sobre isso, só um último detalhe: não vamos deixar.

Nem fodendo.

15 razões para ser contra o impeachment

Por Gabriel Moreno

 

1. Não há crime de responsabilidade por parte da presidenta.

Sem crime, é um procedimento ilegal e ilegítimo. Se fosse legal, não haveria tantos juristas, intelectuais, acadêmicos e gente de muitos outros setores e lugares se colocando contra.

 

2. Parece que todos em volta da presidenta estão denunciados em alguma coisa, menos a própria.

O Congresso, que é quem votaria o impeachment, é formado por muitos corruptos, a começar pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

O Augusto Nardes, que é quem deu um parecer negativo sobre o governo no TCU (Tribunal de Contas da União), é denunciado por ter recebido mesadas em esquemas de corrupção. E só para ficar em alguns poucos exemplos.

Seria uma desmoralização completa do país se uma presidenta que não é denunciada em nada, que nunca teve uma única acusação de corrupção contra ela, ser derrubada por tantos corruptos.

 

3. Se o processo é ilegal e ilegítimo, haverá reação.

E não terá como calar todos que vão se colocar contra, porque não vivemos numa ditadura militar e não terá como colocar medo em todo mundo. O país entrará em um período de turbulência política e certamente haverá uma escalada de violência.

 

4. Não é como se nunca mais fossem haver eleições.

Elas vão acontecer daqui dois anos. Por que não esperar por elas e preservar algo mais importante, que são as instituições?

 

5. As instituições brasileiras precisam se solidificar.

Elas não podem ficar reféns nas mãos de interesses de ocasião e grupos oportunistas. Se, por exemplo, um presidente que foi eleito democraticamente puder ser deposto por qualquer motivo, simplesmente estamos jogando nossa democracia no lixo.

Nenhum presidente no futuro estará garantido. Precisamos fortalecer a instituição democracia, não a enfraquecer. Que cada um espere sua vez, em eleições de quatro em quatro anos.

 

6. Crise econômica não é motivo para retirar presidente.

Mais uma vez, o que vale são as instituições. Se em qualquer crise, que pode acontecer por motivos os mais diversos, o presidente for deposto por qualquer grupo, estamos jogando também fora a democracia. O voto dos que o elegeram não é respeitado.

Deixar nossas decisões sobre o país, como a escolha de presidentes, nas mãos de conchavos e jogadinhas políticas de bastidores, é pregar o vale-tudo. Ganha aquele que for mais esperto. Lutamos muito para termos uma evolução, que é o direito do povo votar.

Tirar isso e “terceirizar” (para um bando de corruptos, diga-se de passagem), em lances os quais não temos controle e participação, é um retrocesso imenso.

Abre-se um precedente perigosíssimo para que isso seja repetido em outros momentos futuros. Precisamos lutar pela democracia, para que ela resista a esse tipo de oportunismo, independentemente de concordarmos ou não com o governo atual.

 

7. Não se sabe o que vem no lugar da presidente.

A beleza do processo democrático é que temos eleições, temos informações sobre os candidatos, num período que dura alguns meses e em que todos discutem sobre as opções dadas e podem fundamentar suas decisões. Isso não está acontecendo no momento. Outra pessoa irá governar e ninguém sabe absolutamente nada sobre o seu plano de governo.

É como se nós estivéssemos em uma “eleição disfarçada” no momento. Só que, no caso, nós não votamos e só observamos. E o outro candidato ninguém sabe o que é e ninguém o elegeu. Há duas opções somente, que é Dilma continuar ou Temer assumir. Só que Dilma nós sabemos um pouco o que é, Temer ninguém sabe. E eles fazem questão de fazer com que ninguém saiba.

 

8. O próximo plano de governo é ruim para os trabalhadores e para a povo.

E aí é que está a principal questão, que hoje é escondida do debate. Um plano de governo, que não foi votado e não foi discutido, tampouco escolhido pela população, será implementado. Basta abrir o documento “Uma Ponte para o Futuro”, do PMDB, para ver o que está descrito lá.

Dentre as coisas que lá estão ditas, estão a retirada de direitos da CLT, a diminuição de investimentos em educação e saúde, ataques à previdência, além de muitas outras pautas que são ruins para a população.

Este plano de governo não resistiria a um debate eleitoral qualquer. Não seria votado em eleições livres e abertas. Por isso precisam implementá-lo através de uma manobra de impeachment. Por isso ele é escondido do debate.

Trata-se, portanto, de muito mais do que “não gosto do governo atual e então vou tirar”. Trata-se de uma substituição de um projeto por outro, sendo que não sabemos sobre o outro, não o escolhemos e não o discutimos.

 

9. Escolher presidentes é razão e não emoção.

Por que temos um processo eleitoral, todo um ritual para isso? Para que consigamos estabelecer razões mínimas, racionais, para que façamos nossas escolhas. Não é no “susto” que se escolhe um presidente. Trata-se de decisão de suma importância. Pode afetar o país por muitos anos.

Não se pode permitir que uma decisão dessas seja tomada de forma passional, instigado por manchetes escandalosas de jornais e matérias que tentam apelar para nossas emoções. Como já dito no item 8, outro projeto está em vista e ninguém o está discutindo racionalmente. E ele vai ser implementado, à nossa revelia.

 

10. Cunha se tornaria o vice-presidente, aliado de Michel Temer, que é presidente do seu partido, e enterraria todas as investigações à seu respeito.

Isso até o mais bobo dos mortais sabe. O processo de impeachment, a propósito, iniciou-se como uma vingança pessoal do Cunha, quando o governo não quis votar a seu favor nas comissões que o investigavam. No mesmo dia em que o governo fez isso, ele colocou o impeachment para votação.

Até agora, na posição de presidente da Câmara, fez todas as manobras possíveis para adiar o seu processo de cassação ou até prisão. Com um aliado na presidência, então, fará muito mais. Vamos entregar à raposa a chave do galinheiro.

 

11. O mundo já está se colocando contra o impeachment.

Organismos multilaterais, como a ONU e a OEA, já disseram que trata-se de um golpe. Sanções, no futuro, devem acontecer. Países da Europa e da América do Sul já se colocaram contra. De cara, já seríamos excluídos do Mercosul, um prejuízo imenso. Ficaríamos isolados. Tudo isso para quê? Por que não podemos esperar só dois anos, para as próximas eleições? Não faz sentido.

 

12. A instabilidade política que se seguiria afugentaria investidores internacionais.

Ninguém vai querer colocar dinheiro no país. Afinal, quem investiria num país que não tem segurança jurídica mínima a ponto de manter o seu próprio presidente? E se na próxima turbulência política o governo disser que não vai arcar com os seus compromissos? Como ninguém rasga dinheiro nessa vida, todos fugiriam do Brasil.

E que não se engane quem acha que os setores que hoje são contrários ao golpe vão se aquietar. Uma vez o impeachment aprovado, estes setores passarão a se mobilizar constantemente e a crise vai se arrastar ainda mais. A imprensa noticiou que apenas 95 mil pessoas estiveram na Paulista contra o golpe, mas isso não é verdade. Imagens da Bandnews (http://bit.ly/1PiRZfu) mostram a Avenida completamente tomada. Havia umas 300 mil pessoas, no mínimo. E manifestações parecidas também ocorreram por todo o Brasil.

A imprensa tenta enganar o povo de que haveria estabilidade e tranquilidade depois de retirada a presidência. Isso não é verdade. Se antes do golpe muita gente já foi para a rua, muita gente voltaria a ir depois dele. E num contexto muito mais complicado, com os ânimos exacerbados. E repetindo: tudo isso para quê? Só por quê não podemos esperar dois anos, até as próximas eleições?

 

13. Se há alguma dúvida sobre o impeachment, ele não deveria ser feito.

Trata-se de um processo muito grave, traumático para o país e que coloca em xeque nossas instituições. O ato maior da democracia, que é a votação, fica comprometido. É colocado no lugar alguém que não foi eleito para isso. Isso só pode ser feito se houver razões sérias, previstas em lei, e não por interesses de ocasião ou manobras. O que se pode dizer sobre o impeachment é que, no mínimo, pairam dúvidas sobre ele. Nesse caso, a democracia deve prevalecer.

 

14. Uma onda de ódio e intolerância está tomando o país, e essa onda de ódio está justamente do lado de quem quer derrubar a presidente.

Esses grupos, que hoje já partiram para a violência, sairão fortalecidos e prestigiados depois do impeachment. Hoje é impossível discutir política e colocar as suas posições sem que haja algum tipo de animosidade.

Precisamos construir um país em que todos possam dar as suas opiniões e os seus pontos de vista sem que haja ameaças ou intimidações. Isso é enriquecedor e é uma das características mais fascinantes de uma democracia. Estamos jogando isso no lixo hoje. Hoje podemos sair às ruas, para expressar nossas opiniões sejam elas quais forem. O governo federal respeita esse direito. Será assim no futuro? Tudo indica que não.

Com o governo atual sendo retirado “na marra” e com os grupos de ódio fortalecidos, haverá uma tentativa de criminalizar todos os que se opuserem ao novo governo. É o contrário do que se faz hoje. Temos a liberdade, hoje, de sairmos às ruas e protestarmos o quanto quisermos contra o governo. Estaremos simplesmente abrindo mão dela.

E que não pense que só os “petralhas” vão ser aqueles intimidados. Nada mais fácil do mundo do que chamar qualquer um de petralha (mesmo o mais conservador dos seres) caso ele discorde de alguma medida do novo governo. E aí a repressão vai comer solta. Se o novo governo começar a realizar medidas que desagrade a população, as manifestações contrárias não terão mais selfies da PM e fotos sorridentes.

 

15. A onda de ódio já passou de todos os limites.

É preciso respeitar a democracia e recolocar o país nos eixos.

Quem acompanha política de alguma maneira, mesmo de maneira superficial, está vendo que o ódio está crescendo exponencialmente. Isso simplesmente vai destruir a nossa sociedade. Um impeachment, que muitos entendem como golpe, vai acirrar ainda mais os ânimos. Isso pode ter consequência por décadas.

Foi feito durante os últimos anos um processo de generalização que joga todos os problemas do país no colo de um partido. Esse partido tem sim a sua parcela de culpa e de responsabilidade, mas não foi ele quem inventou os problemas do país nem é ele o único responsável. E nem todos os que os apoiam são bandidos ou são pessoas que compactuam com medidas incorretas.

Esse tipo de generalização nos levou a lugares muito sombrios antes na história. Trata-se da criação de um “bode expiatório” que distrai todos na população para a origem real dos problemas, que é muito mais complexa e multifatorial. Já vemos hoje pessoas de vermelho na rua serem agredidas. Qualquer opinião que não siga a da “massa uniforme” é rechaçada. Uma criança de apenas um ano teve seu atendimento médico recusado, porque sua mãe era petista (ver http://bit.ly/25oJdZ5). Será que não dá para perceber que já passamos muito do ponto, e que daqui para a frente isso só vai piorar?

E não se trata de ser contra ou a favor àquele partido. Isso é normal e deve ser estimulado em um sistema democrático. Mas de maneira civilizada, no campo das ideias. O que nós vemos é ódio, puro ódio. E no ódio não dá para colocar rédeas. É irracional e pode-se voltar contra qualquer um. Já tivemos casos de pessoas agredidas porque estavam com camiseta da bandeira da Suíça, que é vermelha (http://bit.ly/1RsdUVW). Só isso já dá uma mostra do grau de irracionalidade e perigo desse tipo de coisa.

Esse ódio só aumentaria no caso de um processo de impeachment, pois definitivamente seriam tratados como criminosos todos os grupos que se associam, mesmo que de maneira vaga, a qualquer ideia associada ao partido que hoje comanda o governo federal.

A história já mostrou que isso não acaba por si só, sem reação. Essa tendência só cresce se nós deixarmos.

Uma carta aberta a Mark Manson

* Em resposta a “Uma carta aberta ao Brasil”

Caro Mark Manson, sou brasileiro e recentemente li sua carta aberta a nosso país.

Logo de início, ela nos alerta que suas posições poderão ofender-nos. Com sorte, esse não foi o caso: não lerá aqui uma carta de alguém ofendido.

O que mais me chama atenção em sua carta é que faz uma avaliação dos problemas de nosso país do ponto de vista de um estrangeiro vindo de um país desenvolvido. Como registro da sua percepção, sua carta é muito interessante.

Como avaliação de nossa realidade, porém, ela carece de profundidade. Sua carta diz mais sobre você e suas crenças do que sobre nosso país.

Mas deixe-me contar um pouco de mim: tenho 29 anos, nasci e vivi minha vida toda em São Paulo e seus entornos. Tive uma infância na classe média, uma adolescência pobre e hoje posso dizer que levo uma vida confortável. Já transitei por muitos círculos sociais, já passei por necessidades financeiras graves e também já viajei pelo mundo. Frequentei escolas na boca da favela e já estudei na maior universidade da América Latina. Já trabalhei em pequenas empresas e em grandes multinacionais, já fui apresentador de TV.

Em São Paulo, vivi um pouco de tudo. Minha visão, porém, é igualmente limitada no seu poder de analisar a realidade.

A realidade não é uma maçã na fruteira que está lá para qualquer um pegar. A realidade é o colapso de infinitas observações sobre o espaço público.

E aqui traçamos a fundamental diferença entre a sua postura e a minha: não tenho pretensão de analisar e fazer afirmações sobre a realidade do Brasil baseado na minha experiência pessoal.

Vivemos em uma época privilegiada da história em que temos ferramentas para compreendê-la para além daquilo que nos é apresentado pela vivência. A ciência da história coleta múltiplos olhares, opiniões e argumentações para compor teorias cuja relevância para compreender a realidade excede em muito o que se faz visível através das aparências.

Voltando ao seu texto, você se propõe a responder uma pergunta: “Por que? Por que o Brasil é tão ferrado? Por que os países na Europa e América do Norte são prósperos e seguros enquanto o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?”

Sua resposta para isso é que nós, brasileiros, somos o problema.

Essa, no entanto, não é uma pergunta nova. Há vasta literatura sobre esta pergunta e muitas teorias já lapidadas pela ciência da história que podem jogar luz na questão. Não sou historiador e não pretendo discorrer sobre as varias vertentes de pensamento que se aprofundam sobre o tema.

Gostaria, no entanto, de destacar uma idéia bastante madura que entra diretamente em conflito com suas conclusões: os fenômenos sociais não são explicados por si próprios. Para entender um fenômeno social, precisa-se entender a infraestrutura desta sociedade, ou seja, a forma como essa sociedade produz e distribui os bens e serviços que suprem as necessidades e desejos de seus pertencentes.

Dito isso, não se pode entender a cultura brasileira sem entender como a infraestrutura do Brasil se desenvolveu em função do tempo. Sendo a sociedade capitalista moderna global, não pode-se entender a infraestrutura brasileira sem entender a infraestrutura global.

O Brasil é um país majoritariamente agrário, fruto de uma colonização longa e extrativista, cuja fundação remete à divisão da terra em unidades hereditárias loteadas pela coroa a membros da nobreza portuguesa. Longa história, nosso país de raízes aristocráticas teve sua independência tardia, sua industrialização ainda mais tardia e até tão recentemente quanto os anos 80 não tinha ainda um governo eleito pelo voto nos moldes do que é chamado de democracia.

Isso coloca o Brasil no grupo dos países cuja competitividade no mercado internacional é limitada, não por incapacidade de seus habitantes de criar ou produzir, mas por condicionamento histórico: nossa infraestrutura não está plenamente desenvolvida, nosso desenvolvimento está atrasado.

Não temos industrias, ferrovias, malhas viárias e universidades em estágio de desenvolvimento similar ao dos países da Europa ou da América do Norte (exceto México).

Insisto em sua pergunta introdutória, onde questiona “Por que (…) o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?” – mas esse não é tampouco um fenômeno local: o capitalismo global tem crises cíclicas. Os Estados Unidos estiveram em crise recentemente, a Europa ainda se recupera da sua. A única diferença é que a crise em um país subdesenvolvido tem consequências mais graves para o povo que em um país desenvolvido.

Olha, meu caro Mark, entendo que deve ser incômodo para um estrangeiro ter que viver sob os traços culturais de um outro povo. Entendo que se irrite que nós esperemos quem está atrasado, que protegemos nossos amigos quando sabemos que ele está errado, que por vezes coloquemos nossa família na frente da sociedade como um todo. Também vejo outros problemas ainda mais graves enraizados na nossa e em outras culturas: machismo, racismo, homofobia, intolerância religiosa etc. Poderei listar um punhado de traços culturais que entendo problemáticos em qualquer povo do mundo que conhecer.

O problema surge quando concluímos que esses traços culturais são a razão última dos problemas sociais.

Não é difícil perceber que o fato de nos atrasarmos para compromissos não tem um impacto na realidade material do país compatível com a dimensão dos nosso problemas. O hábito de esperarmos quem está atrasado ou de sermos vaidosos não pode competir com a desproporção entre o desenvolvimento da nossa infraestrutura e a dos países desenvolvidos com os quais mantemos relações comerciais.

Você diz que o brasileiro não foca sua energia em produtividade. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, fruto do trabalho árduo de milhões nos campos fazendo jornadas de trabalho incansáveis debaixo do sol a troco de migalhas. Como isso se compara com a produtividade de alguém que senta no ar condicionado para responder e-mails oito horas por dia e voltar para casa?

Isso mostra outro aspecto da superficialidade da sua análise: você não conheceu o Brasil dos brasileiros, você simplesmente viveu como privilegiado por aqui. Você não sofreu nossas crises, não passou necessidades e não trabalhou nas nossas lavouras.

Além do mais, você diz que em países desenvolvidos o senso de justiça é mais importante que qualquer indivíduo.

O problema é que seu senso de justiça é um, o meu é outro, e de uma terceira pessoa será outro. Se você viveu sua vida toda sendo beneficiado por uma noção de justiça, talvez tenha dificuldade de enxergar que essa justiça pode não estar sendo justa para outros. Se você, por outro lado, foi massacrado pela mesma noção de justiça, terá pouco estímulo para respeita-la.

Em especial, se você acha justo uns terem carros que custam caro por terem condições de competitividade superiores ou herança de condições materiais favoráveis, e que outros, mesmo que prejudicados financeiramente, terem que trabalhar meses para pagar a franquia do seguro se esse carro, privado, largado e ocupando espaço em uma via pública, for danificado por uma colisão acidental com seu veículo barato, então definitivamente temos sensos de justiça bastante distintos.

Ou se você acha justo que deixemos alguém se desesperar em dívidas como punição educativa por esse ter gastado demais, lembre-se que por aqui um professor ganha menos do que o suficiente para comprar comida e pagar o aluguel e que portanto sua sobrevivência e sua dignidade não podem ser mantidas ao mesmo tempo em que este garante sua segurança financeira. Se acha que essas pessoas são “gastadoras”, seu senso de justiça também difere demais do meu.

Para encerrar, você diz que as coisas aqui não irão melhorar e traça previsões catastróficas para nossos próximos 5-10 anos, falando a nossos jovens que esses irão fracassar, e que a culpa é toda nossa.

Me desculpe, meu caro Mark, mas essa sua condenação determinista e apocalíptica em relação ao nosso futuro eu não vou nem comentar, pois não tenho vocação para astrologia.

Te vejo no próximo carnaval.

Como não explicar o terrorismo

Frente aos atentados na França, muita gente acordou para o fato de que existe guerra e terror no mundo. É muito mais real a percepção da crueldade quando ela acontece “do lado de cá da cerca” e não em países onde “as pessoas lá se matam mesmo”.

Antes, alguns dados sobre o terror que o lado de cá da cerca proporcionou ao lado de lá:

  • Os bombardeios nucleares no Japão em 1945 mataram mais de 100 mil civis instantaneamente.
  • A guerra no Vietnam usou agentes químicos que estima-se terem causado 400 mil mortes e 500 mil nascimentos com deficiências.
  • Na guerra “contra o terror” no Afeganistão, aproximadamente 26 mil civis foram mortos.
  • Na guerra do Iraque, aproximadamente 66 mil civis foram mortos.

Como podem ver, terror não é coisa recente, é uma pratica do Ocidente há muitos anos. Mas quando é do lado de lá, nossa mente imagina bombas explodindo no desertos e levantando areia, talvez um tiro limpo no peito de um soldado. Quando é do lado de cá, imaginamos bombas desmembrando corpos de pessoas inocentes. Não se engane: os milhares de civis mortos nos terrores acima citados também foram pessoas inocentes cujos corpos foram despedaçados, mutilados e violentamente destruídos.

Muita gente começou a teorizar sobre o porque do terror ter se voltado contra Paris. E muita gente se propôs explicar os eventos, tarefa difícil e muito frequentemente feita sem nenhuma responsabilidade. Irei no sentido contrário, vou me limitar a eliminar explicações:

O terror não se explica pela religião: 1.5 bilhões de pessoas seguem o Islã, e não estão matando ninguém. Dizer que a religião dá conta de explicar atentados terrorista sustenta um discurso preconceituoso que justifica injustiças em políticas de imigração e até guerras ainda mais cruéis do que os atentados que as precederam. Essa reação já está acontecendo e aguarde por ver ainda mais corpos afogados nas praias da Europa e mais corpos despedaçados na Síria.

O terror não se explica por falta de forças de segurança: a França é uma das maiores potências bélicas da Europa. Os EUA, que foram alvos de atentados por várias vezes, são a maior potência bélica da história da humanidade. A falta de proteção nunca explica um ataque, mas esse discurso sem sentido também é fabricado para justificar investimentos cada vez maiores em máquinas de guerra e para privilegiar candidaturas fascistas por todo mundo.

O terror não se explica por falta de vigilância. Não será vigiando todas as conversas do mundo que atingiremos a paz. Pagaremos um preço muito alto se aceitarmos que nos vigiem sob o pretexto de nos protegerem, distopia esta explorada vastamente na literatura e no cinema, porém pouco levada a sério na prática. No fim, apenas outra explicação fabricada para justificar a revogação de direitos civis e a implantação de um panóptico global que suprima não o terrorismo, mas qualquer tentativa de contestação da ordem pelo próprio povo.

O terror não se explica pela insanidade de indivíduos. É também comum culpar o indivíduo por toda sorte de fenômenos sociais. Pessoas que se explodem para matar outras podem ser considerada loucas, mas não foi a loucura quem as motivou. O que as motivou foi, pasmem, o motivo. Esse mesmo motivo que não encontramos na sua insanidade, nem na sua religião, nem na falta de vigilância, nem na falta de segurança.

Os motivos só poderão ser revelados após profunda análise histórica e política – não podem ser entendidos pela superfície. As explicações, as razões, vivem lá em baixo, no fundo, na infra-estrutura, nas perversões do poder, do nosso poder e dos poderes que sustentamos.

A explicação está lá no fundo do armário, onde a gente não quer mexer, porque sabemos que vai nos custar caro.

AAAAAAHHHHHH!

AAAAAAHHHHHH!!!

Vamos combinar: todo brasileiro adulto está cientes de que se cometer crimes poder ir pra cadeia. E na cadeia você passa anos se fodendo, sendo molestado, dormindo no chão mijado, cagando em público e comendo gororoba.

Mas isso não é o pior castigo, decididamente. Ir para a cadeia é uma merda, mas muitos não tem esse privilégio: cometer um crime, violento ou não, é frequentemente motivo para você ser assassinado pela polícia. Ladrão não pode vacilar – diria o poeta.

Os brasileiros adultos sabem que se cometerem crimes estão fodidos – ou mortos. E que ninguém estará nem aí para eles, vão querer que eles se explodam.

Mesmo sabendo desse risco, brasileiros adultos continuam cometendo crimes. Muitos crimes. Crime pra caralho!

O que está acontecendo então?

Está acontecendo que os fatos estão contradizendo esse papo furado que nos venderam de que a punição é a resposta para a violência.

A informação sobre isso hoje é tão farta que, em pleno século XXI acreditar que a punição resolve a violência é ser impermeável aos fatos. Não acredita? Vai pesquisar, por que eu não vou ficar fazendo pesquisa pra você, seu preguiçoso.

Vamos parar de falar que punição resolve violência?

Vamos, já?

Obrigado. =)

Agora, defender a redução da maioridade penal como solução para violência é igual colocar uma venda nos olhos, tampar os ouvidos e gritar AAAAAAHHHHHH!!!

Dos 54 países diminuíram a maioridade penal na nossa história recente, nenhum (!) assistiu diminuição na criminalidade. Nenhum. Vamos mudar nossa constituição para criar uma regra que comprovadamente falhou 54 vezes e não foi efetiva nenhuma vez na história.

Isso é uma idéia burra, vingativa, mesquinha. Que vergonha você apoiar isso, hein? QUE VERGONHA!

Se quisermos diminuir a violência, não tem jeito, temos que responder a pergunta: por que as pessoas são violentas?

Por que vocês acham? Degladiem-se nos comentários.

Mas sem violência!

Entre a esperança e o retrocesso

A campanha eleitoral deste ano está disputadíssima, com números muito próximos para os candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves. A decisão, muito provavelmente, será voto por voto, com pequenas e individuais medidas de cada um dos simpatizantes de cada um dos lados contando muito.

Por isso, mesmo com críticas até mesmo duras ao governo atual, mas tendo em vista que o projeto do PSDB é muito pior (algumas justificativas mais abaixo, devidamente fundamentadas), posiciono-me abertamente e me empenho em tentar convencer amigos, parentes e conhecidos a votarem pela manutenção de Dilma Rousseff na Presidência da República.

Pois creio que, conforme vou tentar demonstrar abaixo, seguimos numa linha de progresso (ainda que tímido), e o que Aécio e o PSDB propõem pode representar um retrocesso.

Denúncias seletivas de corrupção

Tem rolado pela internet (Facebook, blogs diversos e inúmeras redes sociais) vídeos e imagens tentando desconstruir a imagem de Aécio Neves, que, ao que parece, segue intocado pela mídia. Há relações conhecidas entre Aécio e a família de Zezé Perrella, que teve um helicóptero apreendido com mais de 400 kg de cocaína (link para matéria aqui http://bit.ly/1z562DC). O governo de Minas, na gestão do candidato tucano, teria construído um aeroporto com dinheiro público em terreno particular de sua família (link para matéria aqui http://abr.ai/1vHHo89).

Nenhum dos itens acima tem ganhado destaque na mídia, ao contrário da delação premiada da Petrobrás que, com fatos ainda a serem apurados, são martelados o tempo todo nos noticiários e associados ao PT. Imagine você, que por acaso topa com este texto aí pelo Facebook, se Dilma ou qualquer pessoa do PT é compadre de alguém pego realizando tráfico de drogas… qual você acha que seria o destaque nos jornais? E no caso do aeroporto feito com recursos públicos?

Para que não fique dúvidas, saiba você que até tapioca no valor de oito reais já foi investigado pelos maiores noticiários do nosso país (“crime” associado ao PT), e que José Serra tentou, em 2010, acusar o PT de tê-lo tentado matar com uma letal bolinha de papel atirada por um militante do partido (fez tomografia e ocupou diversos minutos do Jornal Nacional). Não resta dúvidas de que, portanto, nossa grande imprensa tem um lado, e omite denúncias de corrupção contra Aécio Neves, e centra todo o seu fogo apenas em denúncias contra o PT.

Se você, que não gosta de ler os famosos “blogs sujos” para formar sua opinião sobre política (entendendo que eles são tendenciosos em favor do Partido dos Trabalhadores), também não deveria formá-la através da nossa chamada grande imprensa. Ela também escolheu um lado, ainda que diga que não. O que os blogs e redes sociais fazem é tentar mostrar um outro lado, numa luta desigual entre uma grande estrutura de mídia e iniciativas muitas vezes individuais, blogs pequenos e textos como este que você lê agora.

Mas a questão não é essa. Mesmo que Aécio Neves fosse a Madre Teresa de Calcutá (e ele não é), ainda assim me oporia de maneira veemente ao seu projeto de país, às suas ideias em relação à política e à economia. Vamos falar sobre desigualdade social.

Dois projetos de país, dois resultados diferentes

Tomo, por base, este artigo (link http://bit.ly/ZoAN5E) para que se compreenda um pouco melhor a questão. Gostaria de destacar o seguinte trecho:

“Dentro das propostas discutidas no âmbito das eleições presidenciais, vemos de um lado uma ideia de continuidade do processo [de redução das desigualdades]. Por outro lado, pelas questões colocadas como prioritárias pela oposição ao atual governo, percebe-se grande ênfase na redução da inflação e em um ajuste fiscal. Quais seriam, então, os efeitos disso sobre a desigualdade de renda?”

O artigo, muito mais elaboradamente do que eu, sustenta aquilo que é também a minha visão: a política econômica do PSDB é brutal contra a população mais pobre e aumenta as desigualdades sociais. A resposta, para a questão acima, é aumento de juros e contenção de gastos públicos. Vamos ver o que o economista autor do artigo diz sobre isso:

“Um aumento dos juros, historicamente elevados, favorece os ganhos financeiros daqueles que possuem riqueza prévia acumulada, contribuindo para um aumento da concentração de renda. Com o aumento de juros e a consequente necessidade de se pagar mais sobre a dívida pública, o prometido ajuste fiscal deve se dar via corte de gastos da área social.”

Não é difícil perceber, portanto, como essa política econômica é só mais um meio de as parcelas mais privilegiadas continuarem acumulando riqueza. É o processo que aconteceu historicamente no Brasil. Este processo foi interrompido parcialmente nas gestões Lula e Dilma, que colocaram o social como eixo estruturante do desenvolvimento. O que quer dizer: a política econômica tem que ser feita para que se melhore o bem-estar social da população e não o bem-estar social da população estar sujeito aos ajustes fiscais e econômicos! É uma lógica totalmente oposta.

Para não ficar apenas no blablablá, vamos ver um exemplo prático de como isso acontece. Na Europa, as medidas para a contenção da crise foram as que pregam o PSDB, que são as medidas de corte acima mencionadas, as chamadas “medidas de austeridade fiscal”. Vejamos ainda o que diz o economista no artigo acima:

“Temos nos dias de hoje o exemplo claro dos países da Zona do Euro, que recorreram à austeridade fiscal e encontram sérias dificuldades para retomada do crescimento e altíssimas taxas de desemprego.”

Podemos ver hoje uma situação muito difícil na Europa por conta dessas medidas. O desemprego entre os jovens é altíssimo, para ficar apenas num dado. Olhe o que diz esta recente matéria, do dia 8 de outubro:

“O número de desempregados na Europa alcança um patamar recorde, sobretudo entre os jovens, um fenômeno que afeta uma geração inteira que não estuda nem trabalha”. (link http://bit.ly/1w2t74a).

Vemos que se trata de países desenvolvidos, como Espanha, França, Alemanha e Itália. Mesmo estes países foram à lona com a crise internacional e, por conta de suas medidas de austeridade, de cortes na economia, pioraram ainda mais a situação social da população. Os próprios países reconhecem isso, conforme a reunião da cúpula que trata o tema (relatado na matéria):

“Se todo mundo se dedica a aplicar medidas de austeridade, será registrada uma queda maior do crescimento”, advertiu o presidente francês. Hollande quer reavivar o debate sobre a austeridade depois da divulgação dos últimos indicadores econômicos, com resultados desastrosos”.

Em 2008, quando estourou a crise econômica internacional a partir dos Estados Unidos (dita uma das maiores crises da história do capitalismo), o Brasil tomou medidas que são contrárias à “filosofia” econômica pregada pelo PSDB e, como mostra o exemplo acima, pelos países da Zona do Euro. Este link (http://bit.ly/1w2t74a) mostra algumas dessas medidas. Gostaria de destacar dois pontos: política de juros e superávit primário.
Sobre juros, algumas medidas do governo brasileiro em 2008 (retirado do link acima):

“Para atenuar a crise, destacam-se ainda várias ações monetárias e creditícias que contribuíram para aumentar a liquidez na economia, resultando na diminuição da taxa de juros real em 2009, tais como a redução dos depósitos compulsórios do sistema bancário e o aumento da oferta de crédito”.

Economês à parte, o que se quer dizer é: os juros baixaram e a oferta de crédito aumentou. O que isso significa? O dinheiro continuou circulando e a economia continuou a produzir, as empresas continuaram a empregar, as pessoas continuaram a consumir (empresas continuaram vendendo, portanto, mantendo os seus lucros e os empregos). Com menos juros, o impacto é menor na dívida pública e sobra mais dinheiro para o que o povo precisa (educação, saúde etc).

Agora vamos às medidas relativas ao superávit primário. Mas o que é superávit primário? A palavra é horrível, mas quer dizer apenas o que o país economiza para pagar juros da dívida. Vejamos o que o governo Lula fez em 2008 e que está dentro da noção da administração atual, de desenvolvimento econômico com caráter social:

“Quanto à política fiscal, as medidas anticrise decorrentes de redução de tributos e aumentos de despesas governamentais resultaram na redução do superávit primário da União, cuja proporção do PIB caiu de 2,45% para 1,29% de 2008 para 2009”.

Traduzindo aproximadamente o que foi falado acima: o governo não economizou para pagar dívidas; continuou investindo na economia real, que gera empregos, e não fez cortes na área social, que diminui a pobreza. É o contrário do que o PSDB faz: ele aumenta o superávit primário e os juros, retirando recursos da economia real, da produção (que gera empregos), das políticas sociais, dando para os bancos e instituições financeiras.

O resultado? O Brasil foi um dos menos afetados pela crise financeira de 2008, preservando emprego, salários e conquistas sociais. Alguns artigos que comprovam isso (links http://glo.bo/ZoFRao http://bbc.in/1rrahiF).

Ainda que o debate econômico seja complicado, cheio de termos técnicos e de pontos levantados pelos dois lados em disputa, uma coisa é certa: a política econômica proposta pelo PSDB é um meio de concentrar mais riquezas e de privilegiar aqueles que já são privilegiados. É algo que está na contramão do que tem sido feito nos últimos anos, diminuindo desigualdades e aumentando oportunidades. É, portanto, um retrocesso.

O importante é melhorar a vida das pessoas, tornar a nossa existência mais justa e mais humana. A economia, no sentido acima colocado, não pode estar acima do próprio ser humano. Quando se fala em “ajustes fiscais” para salvar a economia, na verdade está se falando em tirar dinheiro da educação, da saúde, da economia produtiva e do bolso do trabalhador, para dar para uma casta muito privilegiada, de gente que se beneficia do mercado financeiro. É isso que está por trás deste discurso.

Por isso é que eu me oponho a ele e apoio a candidatura de Dilma Rousseff.


Por Gabriel Moreno

Gaza: não é só um conflito

Até quando vão chamar de conflito o que está acontecendo em Gaza? A escolha de palavras não é feita por acaso.

Em 2001, independente de qualquer conflito existente, as manchetes gritavam terrorismo quando os aviões atingiram as torres de NY. Como os eventos dessa semana se distinguem daquele? Bombardear hospitais e parques é um conflito? Me pergunto como os pacientes, em seus leitos, poderiam estar em conflito com Israel.

A escolha do termo “conflito” ao invés de “terrorismo”, “genocídio”, “carnificina”, “massacre”, “extermínio” se dá com caráter político e caracteriza grave manipulação da opinião pública. Façamos nossa parte, e não vamos deixar propagar essa distorção de ênfase em nossos discursos.

Estejamos cientes das crianças despedaçadas, dos mutilados, dos cidadãos explodidos e seus miolos ao chão, para não tornar estéreis nossas opiniões sobre um crime contra a humanidade acontecendo debaixo do nosso nariz.

Esse sangrento massacre não deve ser chamado de conflito, não deve ser entendido como conflito, e, acima de tudo, não é um conflito.

Sempre que ler uma notícia, lembrem-se: a escolha de palavras não é por acaso. Nada é por acaso.

Somos todos… racistas

Se você, assim como eu, tem uma vida completa com todas as suas necessidades satisfeitas, talvez você queira lutar pela causa dos outros.

Isso é mais do aceitável e desejável: é sua responsabilidade. Porém, no meio do caminho, você pode as vezes tropeçar e, pior, cair em cima de alguém.

Todos nós vimos o que aconteceu na última semana: Daniel Alves comeu uma banana, gente bem intencionada comeu bola e gente canalha ganhou dinheiro com isso. Não vou me dar ao trabalho de explicar por que, afinal, não somos macacos e não é legal dizer somos macacos num país tremendamente racista como o nosso.

A única coisa legal seria aproveitar o momento para ouvir o que os negros tem a dizer sobre a realidade do racismo no Brasil. O que é exatamente o oposto de criar uma campanha publicitária que diga para combatermos o racismo ignorando sua existência. Como aquele seu coleguinha de escola que te incomodava todo dia, mas sua professora dizia para não dar bola, o racismo também não deixa de existir se simplesmente fingirmos que ele não existe.

Mais importante do que saber se suas atitudes na luta pela qual você tomou partido são corretas, é saber disso através das pessoas que são atingidas pelo problema. Se está lutando contra o racismo, ouça os negros. Se está lutando contra o machismo, ouça as mulheres. Se está lutando contra a homofobia, ouça os homossexuais. Se luta contra a pobreza, ouça os pobres. A fórmula é bastante simples.

Mais frequentemente do que imaginamos, o preconceito e a opressão não são frutos de atitudes intencionais, mas sim da nossa ignorância, de nossas referências preconceituosas e de tudo aquilo que aprendemos errado ao viver em um mundo fundamentalmente desigual – e ninguém está livre disso. Não basta querer não ser racista, é preciso se esforçar para isso. Todos nós vivemos cercados de referências racistas, todos nós temos o racismo dentro e em volta de nós.

A dificuldade de compreender que o racismo é um problema social e não individual nos põe na defensiva quando ouvimos: “você está sendo racista”. Reagimos com tremendo mal estar a esse tipo de acusação porque genuinamente não acreditamos sermos racista – somos do bem! Antes de prontamente nos colocarmos como vítimas, que tal olhar para dentro de nós mesmos e dizer:

– Ops! É verdade, achei um pedaço de racismo aqui! Deixe-me jogá-lo fora.

Pela minha experiência, quando alguém te chama de racista, machista, homofóbico etc, é bom ficar atento, pois geralmente não é sem motivo.

Já passamos da infância e já não acreditamos mais em bem ou mal. Também já não somos mais crianças e sabemos o quanto podemos ser ignorantes.

Ainda nos falta deixar de sermos crianças e não sermos tão teimosos.