Carta ao leitor

Às 15 horas de ontem, recebi uma ligação no trabalho. Era meu pai, preocupado, dizendo que eu deveria tomar cuidado na rua com a violência das pessoas que leram meu último texto, João e Paulo. Ele se referia à uma quantidade expressiva de leitores que postaram ofensas e até ameaças na caixa de comentário do meu blog.

Esse texto é para você, leitor, que me odiou ontem.

Primeiro, deixo claro que já faz anos que publico conteúdo na internet. Esse tipo de ameaça não me assusta. Talvez, um dia, eu seja atacado por alguém na rua. Quem sabe?

A violência que recebo é desproporcional ao que escrevo. No meu texto, confiram, não há nenhuma agressão. Não há nenhuma ofensa e, mais importante, não é feito qualquer julgamento.

Eu não agredi ninguém, por que estou sendo agredido?

A crônica conta uma história sobre dois homens que nascem no mesmo dia, vivem em condições sociais diferentes e se encontram adultos na cena de um assalto. Foi uma tentativa de sensibilizar o leitor para o fato de que mesmo quem erra tem uma história, que quem erra é humano.

Foi uma tentativa de alertar o leitor que a desigualdade social é uma das grandes causas da violência entre os jovens, como aponta essa pesquisa de 2004 do IPEA. Não a pobreza, ou a riqueza, mas a desigualdade. Não só João, nem só Paulo, mas João e Paulo.

Para esclarecer meu ponto de vista, e evitar as livres e absurdas interpretações que li na caixa de comentários, vou analisar meu próprio texto em função de algumas conclusões que os próprios leitores tiraram dele, mas atribuíram a mim:

 

Interpretação incorreta 1: Pobreza justifica violência

Em nenhum momento a crônica se refere à atitude violenta de João como correta. Por outro lado, é verdade que, vista a história de João e Paulo, tenha sido apresentada explicação coerente para seu senso de injustiça. Explicar é diferente de justificar, muito diferente de apoiar.

A explicação para um crime passional, por exemplo, pode ser o ciúme do marido. Ninguém, no entanto, assume que o autor do filme ou da novela apóia crimes passionais ao escrever a história do marido traído assassino.

Para terminar, João morre no seu primeiro assalto, mensagem clara de que a violência não compensa.

Pobreza não justifica violência. A desigualdade social, em certa medida, oferece explicação.

 

Interpretação incorreta 2: Todo ladrão é pobre ou todo pobre é ladrão

João é um personagem só, não a representação de todos os pobres. Também não é a representação de todos os ladrões.

Existem ladrões pobres e ladrões ricos. E ladrões de classe média, claro. No entanto, é muito mais fácil o ladrão pobre tomar um tiro e morrer do que o ladrão rico. Esse último rouba pelo sistema, de trás de sua mesa de escritório, seguro. Usa o próprio poder do dinheiro para roubar de mãos limpas. Rouba mais do que mil pobres, frauda, corrompe, causa mais mortes que um tiro – mas nunca toma um.

Existem ladrões pobres e ricos. Ladrão pobre é preso ou executado. Ladrão rico, enfim, fica rico.

 

Interpretação incorreta 3: O policial do vídeo estava errado

Reconheço que não sou plenamente capacitado para avaliar essa ação policial. O ladrão estava armado e ameaçando a vida de outras pessoas. Era uma situação complexa e perigosa, exigia atitudes rápidas. Os tiros talvez tenham sido a melhor alternativa. Além disso, os tiros não mataram e a ambulância foi prontamente chamada.

Entre a vida de quem ameaça e a vida de quem é ameaçado, privilegiamos a da vítima. Não quis questionar isso, e não questionei.

 

Interpretação incorreta 4: Você está defendendo bandidos

No calor do momento, até as ofensas ao ladrão são compreensíveis. Agora, as mesmas ofensas nos comentários da minha crônica são sintomáticas de que existe ódio por aqueles que tomaram o caminho errado em suas vidas.

Eu não tenho esse ódio e, aparentemente, isso me torna vítima de ódio também. Para que tanto ódio, meu Deus?

Há quem pense que a solução da violência é matar todos os bandidos. Isso não funcionaria, pois a violência é consequência da nossa sociedade e nosso estilo de vida, não é fruto de uma espécie diferente de pessoa que pode ser extinta. A noção de que os bandidos são fundamentalmente diferente de nós é ignorante, preconceituosa.

A sociedade que cria a miséria, que tira o potencial de nossos jovens, que nos manipula com o consumismo, que nos entorpece com as drogas, que marginaliza a maior parte da população, é uma sociedade incrivelmente violenta por si só.

Então, não estou defendendo bandidos. Estou defendendo pessoas.

 

A única opinião expressa na crônica é de que a vida de Paulo foi justa e a de João não.

Mantenho minha opinião.

 

diegoquinteiro

Meu nome é Diego Moreno Quinteiro, tenho 29 e moro em São Paulo, cidade que amodeio. Gosto de escrever, de colocar vírgulas e de não ligar pra ortografia – então fiz um blog.