15 razões para ser contra o impeachment

Por Gabriel Moreno

 

1. Não há crime de responsabilidade por parte da presidenta.

Sem crime, é um procedimento ilegal e ilegítimo. Se fosse legal, não haveria tantos juristas, intelectuais, acadêmicos e gente de muitos outros setores e lugares se colocando contra.

 

2. Parece que todos em volta da presidenta estão denunciados em alguma coisa, menos a própria.

O Congresso, que é quem votaria o impeachment, é formado por muitos corruptos, a começar pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

O Augusto Nardes, que é quem deu um parecer negativo sobre o governo no TCU (Tribunal de Contas da União), é denunciado por ter recebido mesadas em esquemas de corrupção. E só para ficar em alguns poucos exemplos.

Seria uma desmoralização completa do país se uma presidenta que não é denunciada em nada, que nunca teve uma única acusação de corrupção contra ela, ser derrubada por tantos corruptos.

 

3. Se o processo é ilegal e ilegítimo, haverá reação.

E não terá como calar todos que vão se colocar contra, porque não vivemos numa ditadura militar e não terá como colocar medo em todo mundo. O país entrará em um período de turbulência política e certamente haverá uma escalada de violência.

 

4. Não é como se nunca mais fossem haver eleições.

Elas vão acontecer daqui dois anos. Por que não esperar por elas e preservar algo mais importante, que são as instituições?

 

5. As instituições brasileiras precisam se solidificar.

Elas não podem ficar reféns nas mãos de interesses de ocasião e grupos oportunistas. Se, por exemplo, um presidente que foi eleito democraticamente puder ser deposto por qualquer motivo, simplesmente estamos jogando nossa democracia no lixo.

Nenhum presidente no futuro estará garantido. Precisamos fortalecer a instituição democracia, não a enfraquecer. Que cada um espere sua vez, em eleições de quatro em quatro anos.

 

6. Crise econômica não é motivo para retirar presidente.

Mais uma vez, o que vale são as instituições. Se em qualquer crise, que pode acontecer por motivos os mais diversos, o presidente for deposto por qualquer grupo, estamos jogando também fora a democracia. O voto dos que o elegeram não é respeitado.

Deixar nossas decisões sobre o país, como a escolha de presidentes, nas mãos de conchavos e jogadinhas políticas de bastidores, é pregar o vale-tudo. Ganha aquele que for mais esperto. Lutamos muito para termos uma evolução, que é o direito do povo votar.

Tirar isso e “terceirizar” (para um bando de corruptos, diga-se de passagem), em lances os quais não temos controle e participação, é um retrocesso imenso.

Abre-se um precedente perigosíssimo para que isso seja repetido em outros momentos futuros. Precisamos lutar pela democracia, para que ela resista a esse tipo de oportunismo, independentemente de concordarmos ou não com o governo atual.

 

7. Não se sabe o que vem no lugar da presidente.

A beleza do processo democrático é que temos eleições, temos informações sobre os candidatos, num período que dura alguns meses e em que todos discutem sobre as opções dadas e podem fundamentar suas decisões. Isso não está acontecendo no momento. Outra pessoa irá governar e ninguém sabe absolutamente nada sobre o seu plano de governo.

É como se nós estivéssemos em uma “eleição disfarçada” no momento. Só que, no caso, nós não votamos e só observamos. E o outro candidato ninguém sabe o que é e ninguém o elegeu. Há duas opções somente, que é Dilma continuar ou Temer assumir. Só que Dilma nós sabemos um pouco o que é, Temer ninguém sabe. E eles fazem questão de fazer com que ninguém saiba.

 

8. O próximo plano de governo é ruim para os trabalhadores e para a povo.

E aí é que está a principal questão, que hoje é escondida do debate. Um plano de governo, que não foi votado e não foi discutido, tampouco escolhido pela população, será implementado. Basta abrir o documento “Uma Ponte para o Futuro”, do PMDB, para ver o que está descrito lá.

Dentre as coisas que lá estão ditas, estão a retirada de direitos da CLT, a diminuição de investimentos em educação e saúde, ataques à previdência, além de muitas outras pautas que são ruins para a população.

Este plano de governo não resistiria a um debate eleitoral qualquer. Não seria votado em eleições livres e abertas. Por isso precisam implementá-lo através de uma manobra de impeachment. Por isso ele é escondido do debate.

Trata-se, portanto, de muito mais do que “não gosto do governo atual e então vou tirar”. Trata-se de uma substituição de um projeto por outro, sendo que não sabemos sobre o outro, não o escolhemos e não o discutimos.

 

9. Escolher presidentes é razão e não emoção.

Por que temos um processo eleitoral, todo um ritual para isso? Para que consigamos estabelecer razões mínimas, racionais, para que façamos nossas escolhas. Não é no “susto” que se escolhe um presidente. Trata-se de decisão de suma importância. Pode afetar o país por muitos anos.

Não se pode permitir que uma decisão dessas seja tomada de forma passional, instigado por manchetes escandalosas de jornais e matérias que tentam apelar para nossas emoções. Como já dito no item 8, outro projeto está em vista e ninguém o está discutindo racionalmente. E ele vai ser implementado, à nossa revelia.

 

10. Cunha se tornaria o vice-presidente, aliado de Michel Temer, que é presidente do seu partido, e enterraria todas as investigações à seu respeito.

Isso até o mais bobo dos mortais sabe. O processo de impeachment, a propósito, iniciou-se como uma vingança pessoal do Cunha, quando o governo não quis votar a seu favor nas comissões que o investigavam. No mesmo dia em que o governo fez isso, ele colocou o impeachment para votação.

Até agora, na posição de presidente da Câmara, fez todas as manobras possíveis para adiar o seu processo de cassação ou até prisão. Com um aliado na presidência, então, fará muito mais. Vamos entregar à raposa a chave do galinheiro.

 

11. O mundo já está se colocando contra o impeachment.

Organismos multilaterais, como a ONU e a OEA, já disseram que trata-se de um golpe. Sanções, no futuro, devem acontecer. Países da Europa e da América do Sul já se colocaram contra. De cara, já seríamos excluídos do Mercosul, um prejuízo imenso. Ficaríamos isolados. Tudo isso para quê? Por que não podemos esperar só dois anos, para as próximas eleições? Não faz sentido.

 

12. A instabilidade política que se seguiria afugentaria investidores internacionais.

Ninguém vai querer colocar dinheiro no país. Afinal, quem investiria num país que não tem segurança jurídica mínima a ponto de manter o seu próprio presidente? E se na próxima turbulência política o governo disser que não vai arcar com os seus compromissos? Como ninguém rasga dinheiro nessa vida, todos fugiriam do Brasil.

E que não se engane quem acha que os setores que hoje são contrários ao golpe vão se aquietar. Uma vez o impeachment aprovado, estes setores passarão a se mobilizar constantemente e a crise vai se arrastar ainda mais. A imprensa noticiou que apenas 95 mil pessoas estiveram na Paulista contra o golpe, mas isso não é verdade. Imagens da Bandnews (http://bit.ly/1PiRZfu) mostram a Avenida completamente tomada. Havia umas 300 mil pessoas, no mínimo. E manifestações parecidas também ocorreram por todo o Brasil.

A imprensa tenta enganar o povo de que haveria estabilidade e tranquilidade depois de retirada a presidência. Isso não é verdade. Se antes do golpe muita gente já foi para a rua, muita gente voltaria a ir depois dele. E num contexto muito mais complicado, com os ânimos exacerbados. E repetindo: tudo isso para quê? Só por quê não podemos esperar dois anos, até as próximas eleições?

 

13. Se há alguma dúvida sobre o impeachment, ele não deveria ser feito.

Trata-se de um processo muito grave, traumático para o país e que coloca em xeque nossas instituições. O ato maior da democracia, que é a votação, fica comprometido. É colocado no lugar alguém que não foi eleito para isso. Isso só pode ser feito se houver razões sérias, previstas em lei, e não por interesses de ocasião ou manobras. O que se pode dizer sobre o impeachment é que, no mínimo, pairam dúvidas sobre ele. Nesse caso, a democracia deve prevalecer.

 

14. Uma onda de ódio e intolerância está tomando o país, e essa onda de ódio está justamente do lado de quem quer derrubar a presidente.

Esses grupos, que hoje já partiram para a violência, sairão fortalecidos e prestigiados depois do impeachment. Hoje é impossível discutir política e colocar as suas posições sem que haja algum tipo de animosidade.

Precisamos construir um país em que todos possam dar as suas opiniões e os seus pontos de vista sem que haja ameaças ou intimidações. Isso é enriquecedor e é uma das características mais fascinantes de uma democracia. Estamos jogando isso no lixo hoje. Hoje podemos sair às ruas, para expressar nossas opiniões sejam elas quais forem. O governo federal respeita esse direito. Será assim no futuro? Tudo indica que não.

Com o governo atual sendo retirado “na marra” e com os grupos de ódio fortalecidos, haverá uma tentativa de criminalizar todos os que se opuserem ao novo governo. É o contrário do que se faz hoje. Temos a liberdade, hoje, de sairmos às ruas e protestarmos o quanto quisermos contra o governo. Estaremos simplesmente abrindo mão dela.

E que não pense que só os “petralhas” vão ser aqueles intimidados. Nada mais fácil do mundo do que chamar qualquer um de petralha (mesmo o mais conservador dos seres) caso ele discorde de alguma medida do novo governo. E aí a repressão vai comer solta. Se o novo governo começar a realizar medidas que desagrade a população, as manifestações contrárias não terão mais selfies da PM e fotos sorridentes.

 

15. A onda de ódio já passou de todos os limites.

É preciso respeitar a democracia e recolocar o país nos eixos.

Quem acompanha política de alguma maneira, mesmo de maneira superficial, está vendo que o ódio está crescendo exponencialmente. Isso simplesmente vai destruir a nossa sociedade. Um impeachment, que muitos entendem como golpe, vai acirrar ainda mais os ânimos. Isso pode ter consequência por décadas.

Foi feito durante os últimos anos um processo de generalização que joga todos os problemas do país no colo de um partido. Esse partido tem sim a sua parcela de culpa e de responsabilidade, mas não foi ele quem inventou os problemas do país nem é ele o único responsável. E nem todos os que os apoiam são bandidos ou são pessoas que compactuam com medidas incorretas.

Esse tipo de generalização nos levou a lugares muito sombrios antes na história. Trata-se da criação de um “bode expiatório” que distrai todos na população para a origem real dos problemas, que é muito mais complexa e multifatorial. Já vemos hoje pessoas de vermelho na rua serem agredidas. Qualquer opinião que não siga a da “massa uniforme” é rechaçada. Uma criança de apenas um ano teve seu atendimento médico recusado, porque sua mãe era petista (ver http://bit.ly/25oJdZ5). Será que não dá para perceber que já passamos muito do ponto, e que daqui para a frente isso só vai piorar?

E não se trata de ser contra ou a favor àquele partido. Isso é normal e deve ser estimulado em um sistema democrático. Mas de maneira civilizada, no campo das ideias. O que nós vemos é ódio, puro ódio. E no ódio não dá para colocar rédeas. É irracional e pode-se voltar contra qualquer um. Já tivemos casos de pessoas agredidas porque estavam com camiseta da bandeira da Suíça, que é vermelha (http://bit.ly/1RsdUVW). Só isso já dá uma mostra do grau de irracionalidade e perigo desse tipo de coisa.

Esse ódio só aumentaria no caso de um processo de impeachment, pois definitivamente seriam tratados como criminosos todos os grupos que se associam, mesmo que de maneira vaga, a qualquer ideia associada ao partido que hoje comanda o governo federal.

A história já mostrou que isso não acaba por si só, sem reação. Essa tendência só cresce se nós deixarmos.