Nascido em 4 de julho

Nasci errado, que não queria ter nascido, e fui fruto cirúrgico de algumas camadas de tecido humano dilacerados e pacientemente costurados para minha estréia.

Aos 5 anos eu era uma massa bochechuda e descontrolada de carne, contexto em que fui tragicamente atropelado pelo meu vizinho na rua de casa ao tentar alcançar o outro lado da rua por meus próprios meios, sem sucesso.

Sobrevivente, aos 7 resolvi que seria uma boa idéia unir com um grampo de metal os dois buracos da tomada. Por que separados, afinal? E ganhei uma mão enfaixada pra brincar de múmia.

Tinha um poço em casa onde eu milagrosamente jamais caí, como seria de meu feitio. Gostava de descascar a tinta do muro dos fundos do quintal pra tentar recriar o mapa mundi. Dos mesmos fundos de quintal eu decolei em meu primeiro sonho de voar, entrando pela janela da cozinha e acordando prematuramente por não conseguir desviar da torneira.

Na unica partida de beisebol que disputei na minha vida, busquei obstinado apanhar a bolinha que meu irmão lançou e que encontrou seu destino em minha mão direita, alguns centímetros além da porta de vidro. Para minha infelicidade, a porta estava fechada. Para infelicidade da porta, eu não notei. Como vingança, reduziu-se à pequenos estilhaços que perfuraram impiedosamente a fina pele do meu braço.

Com 8 anos, eu estava confiante de que havia conseguido finalmente montar um videogame à partir da embalagem de meu relógio à prova d’água. Alguns botões desenhados e um recorte pra entrada dos cartuchos e voilà, um videogame construído do zero. Nunca consegui jogá-lo, por motivo de meu pai ter recusado-se a ligá-lo na TV, o que era uma tarefa terrivelmente complexa pra mim.

Comecei então a depositar todas as minhas esperanças na promoção do Toddy que sortearia 1 Mega Drive. Eu nunca tinha visto um na minha frente, mas a pequena foto impressa na embalagem do achocolatado me fascinava de uma forma que eu jamais senti de novo. Acordei por repetidas vezes na madrugada e me aventurei sozinho para a escura e colossalmente gigantesca cozinha de minha casa em busca da embalagem que teria a foto do então objeto mais desejado de toda a minha vida.

Esse último episódio marcou profundamente meu caráter, me ensinando que nada se ganha, que o fascínio pode ser perigoso, que os videogames são fantásticos e que o Toddy empelota. Meu Mega Drive veio só no aniversário, mas veio, antes tarde do que nunca, e fui feliz para sempre…

Como vai?!

Hoje, meu amigo, você perguntou:

– Como vai?

Respondi:

– Muito bem.

Não acredito que tenha entendido a sinceridade e a precisão de minha resposta – deve tê-la tomado como conversa casual.

Amigo, deixe-me explicar melhor…

É fato estrito e coisa certa que vou muito bem.

Minha vida é profundamente simples de viver. Tenho poucas coisas com que me preocupar, não tenho inseguranças: tenho minhas poupanças, previdência privada, plano de saúde e até odontológico. Não me preocupo de perder o emprego ou de pegar febrão ou de cair de boca e perder os dentes: nada disso vai ser mais do que uma dor de cabeça passageira.

No meu cotidiano não preciso ter medo das pessoas que estão andando ao meu lado: não sou interessante para o assaltante, ando mal vestido; não sofro violência policial, sou branco; não tenho medo de ser estuprado, sou homem.

Posso até postar fotos com minha namorada e todo mundo – todo mundo – acha lindo, porque sou heterossexual.

Meu amigo, é fato que nada ameaça meu ciclo vital: tenho certeza que vou comer, dormir e andar em segurança todos os dias. Sei que serei respeitado onde for e que terei várias das experiências que quero ter – vou viajar nas férias e comer naquele restaurante que você falou no final de semana.

E olhe que não sou rico por nenhum critério. Não tenho propriedades, não tenho fazenda, empresa, industria, não sou dono de imprensa, não sou dono de nada além da minha capacidade de trabalhar.

Tenho hoje, porém, absolutamente tudo que um humano de meu tempo pode querer.

Por que diabos eu me importaria em ter qualquer coisa mais: mais dinheiro, mais sucesso?

Eu sei, amigo, você me dirá: mas e a insegurança? E o futuro incerto das crises? E se, Deus me perdoe, uma tragédia acontecer e você não puder trabalhar? E quando você ficar velho?

Ora, que se foda tudo isso!

Poderia colocar meu corpo, minha alma, meus valores e minha existência histórica à disposição de ganhar mais e mais dinheiro e me proteger de tudo isso – só para acabar morto e podre debaixo da terra.

A minha vida está ótima e não precisa de melhora. Aqui está sobrando.

Mas a generosidade da realidade acaba ai, meu amigo.

Em volta de mim, 360 graus, está tudo uma merda, em chamas, aos gritos e ao ranger de dentes.

Nem nas mais criativa distopia da ficção conseguiriam imaginar um mundo tão estúpido, covarde e cheio de mágoas e sofrimento quanto o nosso.

Está instalada uma máquina global esmagadora de sonhos, aspirações e carne que maltrata, mutila, assassina, escraviza e hipnotiza bilhões pessoas e animais. Bilhões, com B.

Estamos destruindo as nossas próprias condições de existência e indo em rumo certo ao apocalipse climático.

Todos os dias genocídios são levados à cabo com robôs e bombas que pulverizam corpos inocentes sem sobrar uma gota de sangue para nos comover.

Nossa comida, fresca, é estragada para produzir porcarias venenosas que são perfumadas para parecerem tragáveis. Enquanto isso ainda, ainda, aindaaaaa tem gente morrendo de fome por toda parte.

Toda essa merda em nome de alguns poderem ficar ricos, que não serve pra nada além de juntar um monte de objetos brilhantes coloridos dentro de salões enormes que só você pode entrar.

Gê-zus. É inacreditável o quanto está ruim.

Mas, olhe amigo, se você perguntar para mim: como vai?

Responderei: estou ótimo.

Que coisa louca, né?

Vou muito bem, obrigado. Tão bem quanto pode estar alguém que vive em uma bolha de privilégios dentro do inferno.

Estou bem, mas a única coisa que passa pela minha cabeça da hora que eu acordo até a hora que eu durmo e durante meus sonhos é como eu vou fazer para destruir a minha bolha, a sua bolha, todas as bolhas e o mundo todo.

Amigo, se você me perguntar: como vai?

Responderei: estou bem.

Mas algo me diz que você vai parar de perguntar.

Indigno de dormir dentro de casa

Quando disseram para fazer, eu fiz. Quando disseram para não fazer, não fiz.

Por trinta anos, obedeci. E nada mudou. A obediência não transforma.

Cá estou em meu apartamento que alguém fez para mim. Subiu quatro paredes, pôs reboco e tinta para eu me sentir bem. Alguém que nem me conhece. Eu me sinto bem, mas eu não sei se quero.

Queria deitar esta noite ao lado daquele homem na rua, que vive na esquina, onde ninguém subiu quatro paredes para abrigá-lo na madrugada.

Mas eu não posso, seria loucura.

Eu encarcerado do lado de dentro pela sanidade. Ele encarcerado do lado de fora pela insanidade.

Um carro passa rasgando o silêncio da madrugada. Aquela vida, que tem um carro, certamente tem paredes para abrigar a si e o carro.

Se eu perguntar para ela, dirá que não estou louco de dormir aqui dentro apesar do homem na rua.

Se eu perguntar ao homem na rua, o que dirá ele de mim?

Trinta anos dormindo do lado de dentro. E nada mudou.

Me pediu umas moedas ontem. Eu dei, na intenção de ajudá-lo. Mas ele não precisa de ajuda, eu preciso. Dou as moedas para ele para que eu me sinta digno de dormir dentro.

Então aqui fico, abrigado, de onde posso vê-lo deitado ao relento da minha janela. Sua existência marca profundamente a minha: me torna indigno.

Ele também pode me ver, mas sequer me olha. Minha existência é irrelevante, sou um mero vetor ocasional de moedas que outras pessoas insignificantes demandam em troca de um prato de comida.

Eu sou o cinza que cobre tudo. Mais um homem dentro de uma caixa. Uma das milhões de caixas de homens que não se importam de vê-lo dormir fora enquanto dormem dentro.

O pão na minha mesa: preciso que protejam o portão para que não o tomem de mim, pois não sou digno dele. A sina da indignidade me escraviza, e cada dia que acordo preciso obedecer tudo e todos para que concordem em proteger meu pão.

Ter tudo, mas não ser digno de nada, te faz se sentir melhor do que não ter nada – mas te escraviza.

Por isso estamos todos dormindo do lado de dentro.

Queria que todos pudessem dormir dentro. Queria um pouco de dignidade.

Como deixar de ser idiota

Deixar de ser idiota é algo complexo e inútil.

A experiência prova que idiotas ganham mais dinheiro, são mais bonitos e mais felizes que não-idiotas. Ainda assim, ninguém quer ser idiota.

Infelizmente, ser idiota parece uma condição assintomática para o portador, de forma que aqueles que são idiotas invariavelmente acreditam não serem idiotas. O primeiro e mais evidente sintoma de ser um idiota é a incapacidade de perceber a idiotice.

Idiotas portanto também não acreditam que outros idiotas são idiotas, e acreditam, pelo contrário, que os não-idiotas são os verdadeiros idiotas. Isso faz com que os idiotas se juntem em grupos de idiotas que se auto consideram não-idiotas.

Um idiota pode ser alertado por um não-idiota de sua situação de idiota, porém, da mesma forma, um não-idiota pode receber incorretamente similar alerta de um idiota. Do ponto de vista de quem está sendo alertado ser um idiota, é impossível saber se o idiota é você ou quem está te alertando.

Alguém pode pensar que ser um idiota logo irá manifestar consequências graves para o idiota, mas engana-se: o mundo protege os idiotas.

Como já dito, por exemplo, os idiotas tem mais dinheiro que os não-idiotas. Pois para ganhar dinheiro você precisa ser idiota! Você precisa aceitar e desempenhar melhor que outros o papel ridículo que lhe foi dado de ser uma engrenagem em uma máquina de moer almas – sorrindo.

Você tem que acordar cedinho, vestir roupinha, ler cartinhas no computador, fazer cartazes com desenhos coloridos no computador, fazer jogral para os coleguinhas, brincar de resolver probleminhas e obedecer o Jorginho.

Tem que ficar no ar condicionado, tomando café quentinho enquanto acha que se esforça mais que os outros. Tem que se auto-intitular workaholic e pagar empregada pra lavar a louça porque tem preguiça.

Ser idiota ajuda muito na escalada do sucesso.

Idiotas são mais bonitos. Estatisticamente falando, um não-idiota qualquer será bonito apenas para uma fração dos não-idiotas, pois cada não-idiota tem uma percepção distinta e única de beleza que reflete sua personalidade. Já um idiota será bonito para todos os idiotas ao mesmo tempo, pois os idiotas assimilam padrões comerciais de beleza e ficam todos bonitinhos, certinhos e penteadinhos uns para os outros.

Idiotas são mais felizes. Enquanto os não-idiotas se vêem melancólicos de viver em um mundo dominado por idiotas, os idiotas por outro lado se vêem realizados por dominarem o mundo.

Se você quer deixar de ser idiota, preciso primeiro que entenda que este é um processo irreversível. Você tem que estar ciente de tudo que estará perdendo. A sua vida de faz-de-conta irá ruir e você desabará no seu próprio vazio existencial.

Você não ganhará nenhum prêmio, o mundo não te dará nada em troca se você deixar de ser idiota. Não tem ganho. Não é um bom negócio. Não entre nessa visando vantagens.

Seu ego será destruído na percepção da vida idiota que levou até aqui. Talvez você não sobreviva à transição. Se sobreviver, chegará do outro lado mais pobre, mais feio e mais triste.

E aí, vai tomar a pílula vermelha?

Se você espera que eu encerre esse texto com uma receita para deixar de ser idiota, sinto decepcioná-lo, caro leitor.

Deixar de ser idiota passa por parar de acreditar que existem receitas para as coisas da vida.

Considere-se iniciado.

Te vejo do outro lado.

Cultura é coisa de vagabundo!

A extinção do Ministério da Cultura não é mero acidente de percurso na gestão Temer, é a representação máxima de sua ideologia.

A ideologia deste conluio que tomou o poder é a ideologia de que o povo é e deve ser uma força produtiva – e nada mais. Cada homem e cada mulher do povo do nosso país, conforme esta ideologia, deve trabalhar o máximo que puder e da forma mais eficiente possível para produzir riquezas e voltar para casa para dormir. Pausas para comer e usar o banheiro devem ser evitadas! É o Taylorismo levado à níveis nacionais: o povo é gado, o povo não deve pensar, não deve decidir, deve apenas trabalhar. E por isso passa, claro, a ideia do povo não precisar de cultura.

De outro lado, a alta classe média e a elite, debruçada sobre trabalhos administrativos e prestação de serviços – trabalhos que desde Aristóteles são considerados privilegiados pois “desgastam menos o corpo” -, terão para si a missão de consumir esses bens sorrindo. Se quiserem cultura, podem sempre assistir um filme americano ou viajar para Disney – do povo brasileiro só precisam da servidão, a cultura não lhes agrada. Vão construir em torno de si muros para se separar do povo e impedi-lo de contestar o poder.

Temer não estava apenas interessado em desviar 0,38% do orçamento destinado à cultura para a especulação financeira. Isso é um desdobramento conveniente, mas não o motivo central do desmonte. O motivo real é a construção de uma sociedade servil que trabalhe de cabeça baixa – e muito, por muito pouco – para alimentar a atrasada, mofada e podre aristocracia brasileira da qual Temer e seus amigos do uísque fazem parte.

É um golpe egoísta, violento e ignorante. A ignorância e o atraso vencem hoje a cultura e o desenvolvimento.

Ah, e sobre isso, só um último detalhe: não vamos deixar.

Nem fodendo.

15 razões para ser contra o impeachment

Por Gabriel Moreno

 

1. Não há crime de responsabilidade por parte da presidenta.

Sem crime, é um procedimento ilegal e ilegítimo. Se fosse legal, não haveria tantos juristas, intelectuais, acadêmicos e gente de muitos outros setores e lugares se colocando contra.

 

2. Parece que todos em volta da presidenta estão denunciados em alguma coisa, menos a própria.

O Congresso, que é quem votaria o impeachment, é formado por muitos corruptos, a começar pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

O Augusto Nardes, que é quem deu um parecer negativo sobre o governo no TCU (Tribunal de Contas da União), é denunciado por ter recebido mesadas em esquemas de corrupção. E só para ficar em alguns poucos exemplos.

Seria uma desmoralização completa do país se uma presidenta que não é denunciada em nada, que nunca teve uma única acusação de corrupção contra ela, ser derrubada por tantos corruptos.

 

3. Se o processo é ilegal e ilegítimo, haverá reação.

E não terá como calar todos que vão se colocar contra, porque não vivemos numa ditadura militar e não terá como colocar medo em todo mundo. O país entrará em um período de turbulência política e certamente haverá uma escalada de violência.

 

4. Não é como se nunca mais fossem haver eleições.

Elas vão acontecer daqui dois anos. Por que não esperar por elas e preservar algo mais importante, que são as instituições?

 

5. As instituições brasileiras precisam se solidificar.

Elas não podem ficar reféns nas mãos de interesses de ocasião e grupos oportunistas. Se, por exemplo, um presidente que foi eleito democraticamente puder ser deposto por qualquer motivo, simplesmente estamos jogando nossa democracia no lixo.

Nenhum presidente no futuro estará garantido. Precisamos fortalecer a instituição democracia, não a enfraquecer. Que cada um espere sua vez, em eleições de quatro em quatro anos.

 

6. Crise econômica não é motivo para retirar presidente.

Mais uma vez, o que vale são as instituições. Se em qualquer crise, que pode acontecer por motivos os mais diversos, o presidente for deposto por qualquer grupo, estamos jogando também fora a democracia. O voto dos que o elegeram não é respeitado.

Deixar nossas decisões sobre o país, como a escolha de presidentes, nas mãos de conchavos e jogadinhas políticas de bastidores, é pregar o vale-tudo. Ganha aquele que for mais esperto. Lutamos muito para termos uma evolução, que é o direito do povo votar.

Tirar isso e “terceirizar” (para um bando de corruptos, diga-se de passagem), em lances os quais não temos controle e participação, é um retrocesso imenso.

Abre-se um precedente perigosíssimo para que isso seja repetido em outros momentos futuros. Precisamos lutar pela democracia, para que ela resista a esse tipo de oportunismo, independentemente de concordarmos ou não com o governo atual.

 

7. Não se sabe o que vem no lugar da presidente.

A beleza do processo democrático é que temos eleições, temos informações sobre os candidatos, num período que dura alguns meses e em que todos discutem sobre as opções dadas e podem fundamentar suas decisões. Isso não está acontecendo no momento. Outra pessoa irá governar e ninguém sabe absolutamente nada sobre o seu plano de governo.

É como se nós estivéssemos em uma “eleição disfarçada” no momento. Só que, no caso, nós não votamos e só observamos. E o outro candidato ninguém sabe o que é e ninguém o elegeu. Há duas opções somente, que é Dilma continuar ou Temer assumir. Só que Dilma nós sabemos um pouco o que é, Temer ninguém sabe. E eles fazem questão de fazer com que ninguém saiba.

 

8. O próximo plano de governo é ruim para os trabalhadores e para a povo.

E aí é que está a principal questão, que hoje é escondida do debate. Um plano de governo, que não foi votado e não foi discutido, tampouco escolhido pela população, será implementado. Basta abrir o documento “Uma Ponte para o Futuro”, do PMDB, para ver o que está descrito lá.

Dentre as coisas que lá estão ditas, estão a retirada de direitos da CLT, a diminuição de investimentos em educação e saúde, ataques à previdência, além de muitas outras pautas que são ruins para a população.

Este plano de governo não resistiria a um debate eleitoral qualquer. Não seria votado em eleições livres e abertas. Por isso precisam implementá-lo através de uma manobra de impeachment. Por isso ele é escondido do debate.

Trata-se, portanto, de muito mais do que “não gosto do governo atual e então vou tirar”. Trata-se de uma substituição de um projeto por outro, sendo que não sabemos sobre o outro, não o escolhemos e não o discutimos.

 

9. Escolher presidentes é razão e não emoção.

Por que temos um processo eleitoral, todo um ritual para isso? Para que consigamos estabelecer razões mínimas, racionais, para que façamos nossas escolhas. Não é no “susto” que se escolhe um presidente. Trata-se de decisão de suma importância. Pode afetar o país por muitos anos.

Não se pode permitir que uma decisão dessas seja tomada de forma passional, instigado por manchetes escandalosas de jornais e matérias que tentam apelar para nossas emoções. Como já dito no item 8, outro projeto está em vista e ninguém o está discutindo racionalmente. E ele vai ser implementado, à nossa revelia.

 

10. Cunha se tornaria o vice-presidente, aliado de Michel Temer, que é presidente do seu partido, e enterraria todas as investigações à seu respeito.

Isso até o mais bobo dos mortais sabe. O processo de impeachment, a propósito, iniciou-se como uma vingança pessoal do Cunha, quando o governo não quis votar a seu favor nas comissões que o investigavam. No mesmo dia em que o governo fez isso, ele colocou o impeachment para votação.

Até agora, na posição de presidente da Câmara, fez todas as manobras possíveis para adiar o seu processo de cassação ou até prisão. Com um aliado na presidência, então, fará muito mais. Vamos entregar à raposa a chave do galinheiro.

 

11. O mundo já está se colocando contra o impeachment.

Organismos multilaterais, como a ONU e a OEA, já disseram que trata-se de um golpe. Sanções, no futuro, devem acontecer. Países da Europa e da América do Sul já se colocaram contra. De cara, já seríamos excluídos do Mercosul, um prejuízo imenso. Ficaríamos isolados. Tudo isso para quê? Por que não podemos esperar só dois anos, para as próximas eleições? Não faz sentido.

 

12. A instabilidade política que se seguiria afugentaria investidores internacionais.

Ninguém vai querer colocar dinheiro no país. Afinal, quem investiria num país que não tem segurança jurídica mínima a ponto de manter o seu próprio presidente? E se na próxima turbulência política o governo disser que não vai arcar com os seus compromissos? Como ninguém rasga dinheiro nessa vida, todos fugiriam do Brasil.

E que não se engane quem acha que os setores que hoje são contrários ao golpe vão se aquietar. Uma vez o impeachment aprovado, estes setores passarão a se mobilizar constantemente e a crise vai se arrastar ainda mais. A imprensa noticiou que apenas 95 mil pessoas estiveram na Paulista contra o golpe, mas isso não é verdade. Imagens da Bandnews (http://bit.ly/1PiRZfu) mostram a Avenida completamente tomada. Havia umas 300 mil pessoas, no mínimo. E manifestações parecidas também ocorreram por todo o Brasil.

A imprensa tenta enganar o povo de que haveria estabilidade e tranquilidade depois de retirada a presidência. Isso não é verdade. Se antes do golpe muita gente já foi para a rua, muita gente voltaria a ir depois dele. E num contexto muito mais complicado, com os ânimos exacerbados. E repetindo: tudo isso para quê? Só por quê não podemos esperar dois anos, até as próximas eleições?

 

13. Se há alguma dúvida sobre o impeachment, ele não deveria ser feito.

Trata-se de um processo muito grave, traumático para o país e que coloca em xeque nossas instituições. O ato maior da democracia, que é a votação, fica comprometido. É colocado no lugar alguém que não foi eleito para isso. Isso só pode ser feito se houver razões sérias, previstas em lei, e não por interesses de ocasião ou manobras. O que se pode dizer sobre o impeachment é que, no mínimo, pairam dúvidas sobre ele. Nesse caso, a democracia deve prevalecer.

 

14. Uma onda de ódio e intolerância está tomando o país, e essa onda de ódio está justamente do lado de quem quer derrubar a presidente.

Esses grupos, que hoje já partiram para a violência, sairão fortalecidos e prestigiados depois do impeachment. Hoje é impossível discutir política e colocar as suas posições sem que haja algum tipo de animosidade.

Precisamos construir um país em que todos possam dar as suas opiniões e os seus pontos de vista sem que haja ameaças ou intimidações. Isso é enriquecedor e é uma das características mais fascinantes de uma democracia. Estamos jogando isso no lixo hoje. Hoje podemos sair às ruas, para expressar nossas opiniões sejam elas quais forem. O governo federal respeita esse direito. Será assim no futuro? Tudo indica que não.

Com o governo atual sendo retirado “na marra” e com os grupos de ódio fortalecidos, haverá uma tentativa de criminalizar todos os que se opuserem ao novo governo. É o contrário do que se faz hoje. Temos a liberdade, hoje, de sairmos às ruas e protestarmos o quanto quisermos contra o governo. Estaremos simplesmente abrindo mão dela.

E que não pense que só os “petralhas” vão ser aqueles intimidados. Nada mais fácil do mundo do que chamar qualquer um de petralha (mesmo o mais conservador dos seres) caso ele discorde de alguma medida do novo governo. E aí a repressão vai comer solta. Se o novo governo começar a realizar medidas que desagrade a população, as manifestações contrárias não terão mais selfies da PM e fotos sorridentes.

 

15. A onda de ódio já passou de todos os limites.

É preciso respeitar a democracia e recolocar o país nos eixos.

Quem acompanha política de alguma maneira, mesmo de maneira superficial, está vendo que o ódio está crescendo exponencialmente. Isso simplesmente vai destruir a nossa sociedade. Um impeachment, que muitos entendem como golpe, vai acirrar ainda mais os ânimos. Isso pode ter consequência por décadas.

Foi feito durante os últimos anos um processo de generalização que joga todos os problemas do país no colo de um partido. Esse partido tem sim a sua parcela de culpa e de responsabilidade, mas não foi ele quem inventou os problemas do país nem é ele o único responsável. E nem todos os que os apoiam são bandidos ou são pessoas que compactuam com medidas incorretas.

Esse tipo de generalização nos levou a lugares muito sombrios antes na história. Trata-se da criação de um “bode expiatório” que distrai todos na população para a origem real dos problemas, que é muito mais complexa e multifatorial. Já vemos hoje pessoas de vermelho na rua serem agredidas. Qualquer opinião que não siga a da “massa uniforme” é rechaçada. Uma criança de apenas um ano teve seu atendimento médico recusado, porque sua mãe era petista (ver http://bit.ly/25oJdZ5). Será que não dá para perceber que já passamos muito do ponto, e que daqui para a frente isso só vai piorar?

E não se trata de ser contra ou a favor àquele partido. Isso é normal e deve ser estimulado em um sistema democrático. Mas de maneira civilizada, no campo das ideias. O que nós vemos é ódio, puro ódio. E no ódio não dá para colocar rédeas. É irracional e pode-se voltar contra qualquer um. Já tivemos casos de pessoas agredidas porque estavam com camiseta da bandeira da Suíça, que é vermelha (http://bit.ly/1RsdUVW). Só isso já dá uma mostra do grau de irracionalidade e perigo desse tipo de coisa.

Esse ódio só aumentaria no caso de um processo de impeachment, pois definitivamente seriam tratados como criminosos todos os grupos que se associam, mesmo que de maneira vaga, a qualquer ideia associada ao partido que hoje comanda o governo federal.

A história já mostrou que isso não acaba por si só, sem reação. Essa tendência só cresce se nós deixarmos.

Uma carta aberta a Mark Manson

* Em resposta a “Uma carta aberta ao Brasil”

Caro Mark Manson, sou brasileiro e recentemente li sua carta aberta a nosso país.

Logo de início, ela nos alerta que suas posições poderão ofender-nos. Com sorte, esse não foi o caso: não lerá aqui uma carta de alguém ofendido.

O que mais me chama atenção em sua carta é que faz uma avaliação dos problemas de nosso país do ponto de vista de um estrangeiro vindo de um país desenvolvido. Como registro da sua percepção, sua carta é muito interessante.

Como avaliação de nossa realidade, porém, ela carece de profundidade. Sua carta diz mais sobre você e suas crenças do que sobre nosso país.

Mas deixe-me contar um pouco de mim: tenho 29 anos, nasci e vivi minha vida toda em São Paulo e seus entornos. Tive uma infância na classe média, uma adolescência pobre e hoje posso dizer que levo uma vida confortável. Já transitei por muitos círculos sociais, já passei por necessidades financeiras graves e também já viajei pelo mundo. Frequentei escolas na boca da favela e já estudei na maior universidade da América Latina. Já trabalhei em pequenas empresas e em grandes multinacionais, já fui apresentador de TV.

Em São Paulo, vivi um pouco de tudo. Minha visão, porém, é igualmente limitada no seu poder de analisar a realidade.

A realidade não é uma maçã na fruteira que está lá para qualquer um pegar. A realidade é o colapso de infinitas observações sobre o espaço público.

E aqui traçamos a fundamental diferença entre a sua postura e a minha: não tenho pretensão de analisar e fazer afirmações sobre a realidade do Brasil baseado na minha experiência pessoal.

Vivemos em uma época privilegiada da história em que temos ferramentas para compreendê-la para além daquilo que nos é apresentado pela vivência. A ciência da história coleta múltiplos olhares, opiniões e argumentações para compor teorias cuja relevância para compreender a realidade excede em muito o que se faz visível através das aparências.

Voltando ao seu texto, você se propõe a responder uma pergunta: “Por que? Por que o Brasil é tão ferrado? Por que os países na Europa e América do Norte são prósperos e seguros enquanto o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?”

Sua resposta para isso é que nós, brasileiros, somos o problema.

Essa, no entanto, não é uma pergunta nova. Há vasta literatura sobre esta pergunta e muitas teorias já lapidadas pela ciência da história que podem jogar luz na questão. Não sou historiador e não pretendo discorrer sobre as varias vertentes de pensamento que se aprofundam sobre o tema.

Gostaria, no entanto, de destacar uma idéia bastante madura que entra diretamente em conflito com suas conclusões: os fenômenos sociais não são explicados por si próprios. Para entender um fenômeno social, precisa-se entender a infraestrutura desta sociedade, ou seja, a forma como essa sociedade produz e distribui os bens e serviços que suprem as necessidades e desejos de seus pertencentes.

Dito isso, não se pode entender a cultura brasileira sem entender como a infraestrutura do Brasil se desenvolveu em função do tempo. Sendo a sociedade capitalista moderna global, não pode-se entender a infraestrutura brasileira sem entender a infraestrutura global.

O Brasil é um país majoritariamente agrário, fruto de uma colonização longa e extrativista, cuja fundação remete à divisão da terra em unidades hereditárias loteadas pela coroa a membros da nobreza portuguesa. Longa história, nosso país de raízes aristocráticas teve sua independência tardia, sua industrialização ainda mais tardia e até tão recentemente quanto os anos 80 não tinha ainda um governo eleito pelo voto nos moldes do que é chamado de democracia.

Isso coloca o Brasil no grupo dos países cuja competitividade no mercado internacional é limitada, não por incapacidade de seus habitantes de criar ou produzir, mas por condicionamento histórico: nossa infraestrutura não está plenamente desenvolvida, nosso desenvolvimento está atrasado.

Não temos industrias, ferrovias, malhas viárias e universidades em estágio de desenvolvimento similar ao dos países da Europa ou da América do Norte (exceto México).

Insisto em sua pergunta introdutória, onde questiona “Por que (…) o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?” – mas esse não é tampouco um fenômeno local: o capitalismo global tem crises cíclicas. Os Estados Unidos estiveram em crise recentemente, a Europa ainda se recupera da sua. A única diferença é que a crise em um país subdesenvolvido tem consequências mais graves para o povo que em um país desenvolvido.

Olha, meu caro Mark, entendo que deve ser incômodo para um estrangeiro ter que viver sob os traços culturais de um outro povo. Entendo que se irrite que nós esperemos quem está atrasado, que protegemos nossos amigos quando sabemos que ele está errado, que por vezes coloquemos nossa família na frente da sociedade como um todo. Também vejo outros problemas ainda mais graves enraizados na nossa e em outras culturas: machismo, racismo, homofobia, intolerância religiosa etc. Poderei listar um punhado de traços culturais que entendo problemáticos em qualquer povo do mundo que conhecer.

O problema surge quando concluímos que esses traços culturais são a razão última dos problemas sociais.

Não é difícil perceber que o fato de nos atrasarmos para compromissos não tem um impacto na realidade material do país compatível com a dimensão dos nosso problemas. O hábito de esperarmos quem está atrasado ou de sermos vaidosos não pode competir com a desproporção entre o desenvolvimento da nossa infraestrutura e a dos países desenvolvidos com os quais mantemos relações comerciais.

Você diz que o brasileiro não foca sua energia em produtividade. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, fruto do trabalho árduo de milhões nos campos fazendo jornadas de trabalho incansáveis debaixo do sol a troco de migalhas. Como isso se compara com a produtividade de alguém que senta no ar condicionado para responder e-mails oito horas por dia e voltar para casa?

Isso mostra outro aspecto da superficialidade da sua análise: você não conheceu o Brasil dos brasileiros, você simplesmente viveu como privilegiado por aqui. Você não sofreu nossas crises, não passou necessidades e não trabalhou nas nossas lavouras.

Além do mais, você diz que em países desenvolvidos o senso de justiça é mais importante que qualquer indivíduo.

O problema é que seu senso de justiça é um, o meu é outro, e de uma terceira pessoa será outro. Se você viveu sua vida toda sendo beneficiado por uma noção de justiça, talvez tenha dificuldade de enxergar que essa justiça pode não estar sendo justa para outros. Se você, por outro lado, foi massacrado pela mesma noção de justiça, terá pouco estímulo para respeita-la.

Em especial, se você acha justo uns terem carros que custam caro por terem condições de competitividade superiores ou herança de condições materiais favoráveis, e que outros, mesmo que prejudicados financeiramente, terem que trabalhar meses para pagar a franquia do seguro se esse carro, privado, largado e ocupando espaço em uma via pública, for danificado por uma colisão acidental com seu veículo barato, então definitivamente temos sensos de justiça bastante distintos.

Ou se você acha justo que deixemos alguém se desesperar em dívidas como punição educativa por esse ter gastado demais, lembre-se que por aqui um professor ganha menos do que o suficiente para comprar comida e pagar o aluguel e que portanto sua sobrevivência e sua dignidade não podem ser mantidas ao mesmo tempo em que este garante sua segurança financeira. Se acha que essas pessoas são “gastadoras”, seu senso de justiça também difere demais do meu.

Para encerrar, você diz que as coisas aqui não irão melhorar e traça previsões catastróficas para nossos próximos 5-10 anos, falando a nossos jovens que esses irão fracassar, e que a culpa é toda nossa.

Me desculpe, meu caro Mark, mas essa sua condenação determinista e apocalíptica em relação ao nosso futuro eu não vou nem comentar, pois não tenho vocação para astrologia.

Te vejo no próximo carnaval.

Vamos conquistar as estrelas

Nós queremos conquistar as estrelas, eu vi num filme.

Meu corpo envelheceu. A flor da minha mesa está morta. Perdi 9kg esses meses, como o doutor pediu.

E se eu cortasse o meu braço? Um braço cortado não sou mais eu – peso perdido. A morte é como cortar o braço, é tornar uma parte de você não-você – a diferença é que você cortou a última parte.

Perdi 9kg, 9kg que não sou mais eu. Estou morrendo?

Eu não me espantaria se alguém dissesse que framboesa não nasce em árvore – eu realmente não sei.

Queremos conquistar as estrelas, eu vi num filme, mas para que? Eu nunca vi nem uma árvore de framboesas! Tem gente que busca planetas habitáveis em outras estrelas. Parece que todos estamos condenados a foder com esse aqui, então achar nossa rota de fuga é a ordem do dia.

Vamos fugir dos nossos problemas. Da Terra. Da vida. Vamos posar para a foto. Vamos tirar a selfie e dar um sorriso preciso, meticulosamente ajustado no visor do celular. Vamos viver a vida dos outros, e os outros vão viver a nossa – então que pareça boa, mesmo que não seja.

Mas a minha é, por acaso. Por acaso, como em um jogo de dados. Viver a vida real é uma realização constante dos meus privilégios, de como tirei o duplo 6.

Eu tenho muitas coisas que não preciso. A flor da minha mesa. Ela precisava de mim, eu não precisava dela, então a deixei morrer.

Sem aquilo que precisamos, não sobrevivemos. Preciso da água, do pão, da cama e do teto. Mas nada disso vai fazer minha vida valer a pena.

Ainda, a flor. Ela valia a pena.

Queremos conquistar as estrelas, e conhecer novos mundos. O mundo é tão pequeno – alguém disse. Tem avião, tem carro, tem internet.

O mundo é pequeno, disseram. Bom, o box do meu banheiro é pequeno: eu preciso abrir o registro, esperar a água esquentar, fechar o registro para não espirar água no banheiro todo e só depois entrar no box, caso contrário a água gelada atingiria minha pele nua sem que houvesse no box espaço para que eu desviasse do jato.

O meu box é pequeno, mas o mundo é infinito. Pode-se chegar a qualquer lugar do mundo em poucas horas, é verdade. Mas é uma ilusão, um truque. As distâncias parecem curtas porque estamos ignorando tudo no caminho.

Distâncias são unidimensionais. O mundo é multidimensional.

Pode-se ir a qualquer lugar em um dia, mas não se pode ir a todos os lugares em mil vidas. E quando chegasse ao último, o primeiro já será outro, que ainda não viu.

Somos bilhões de humanos, e vamos morrer sem conhecer nem mesmo a nós próprios.

O mundo é infinito e as estrelas são infinitas. Vamos conquistar as estrelas! Mas antes, alguém me diz: como chama a árvore da framboesa?

Como não explicar o terrorismo

Frente aos atentados na França, muita gente acordou para o fato de que existe guerra e terror no mundo. É muito mais real a percepção da crueldade quando ela acontece “do lado de cá da cerca” e não em países onde “as pessoas lá se matam mesmo”.

Antes, alguns dados sobre o terror que o lado de cá da cerca proporcionou ao lado de lá:

  • Os bombardeios nucleares no Japão em 1945 mataram mais de 100 mil civis instantaneamente.
  • A guerra no Vietnam usou agentes químicos que estima-se terem causado 400 mil mortes e 500 mil nascimentos com deficiências.
  • Na guerra “contra o terror” no Afeganistão, aproximadamente 26 mil civis foram mortos.
  • Na guerra do Iraque, aproximadamente 66 mil civis foram mortos.

Como podem ver, terror não é coisa recente, é uma pratica do Ocidente há muitos anos. Mas quando é do lado de lá, nossa mente imagina bombas explodindo no desertos e levantando areia, talvez um tiro limpo no peito de um soldado. Quando é do lado de cá, imaginamos bombas desmembrando corpos de pessoas inocentes. Não se engane: os milhares de civis mortos nos terrores acima citados também foram pessoas inocentes cujos corpos foram despedaçados, mutilados e violentamente destruídos.

Muita gente começou a teorizar sobre o porque do terror ter se voltado contra Paris. E muita gente se propôs explicar os eventos, tarefa difícil e muito frequentemente feita sem nenhuma responsabilidade. Irei no sentido contrário, vou me limitar a eliminar explicações:

O terror não se explica pela religião: 1.5 bilhões de pessoas seguem o Islã, e não estão matando ninguém. Dizer que a religião dá conta de explicar atentados terrorista sustenta um discurso preconceituoso que justifica injustiças em políticas de imigração e até guerras ainda mais cruéis do que os atentados que as precederam. Essa reação já está acontecendo e aguarde por ver ainda mais corpos afogados nas praias da Europa e mais corpos despedaçados na Síria.

O terror não se explica por falta de forças de segurança: a França é uma das maiores potências bélicas da Europa. Os EUA, que foram alvos de atentados por várias vezes, são a maior potência bélica da história da humanidade. A falta de proteção nunca explica um ataque, mas esse discurso sem sentido também é fabricado para justificar investimentos cada vez maiores em máquinas de guerra e para privilegiar candidaturas fascistas por todo mundo.

O terror não se explica por falta de vigilância. Não será vigiando todas as conversas do mundo que atingiremos a paz. Pagaremos um preço muito alto se aceitarmos que nos vigiem sob o pretexto de nos protegerem, distopia esta explorada vastamente na literatura e no cinema, porém pouco levada a sério na prática. No fim, apenas outra explicação fabricada para justificar a revogação de direitos civis e a implantação de um panóptico global que suprima não o terrorismo, mas qualquer tentativa de contestação da ordem pelo próprio povo.

O terror não se explica pela insanidade de indivíduos. É também comum culpar o indivíduo por toda sorte de fenômenos sociais. Pessoas que se explodem para matar outras podem ser considerada loucas, mas não foi a loucura quem as motivou. O que as motivou foi, pasmem, o motivo. Esse mesmo motivo que não encontramos na sua insanidade, nem na sua religião, nem na falta de vigilância, nem na falta de segurança.

Os motivos só poderão ser revelados após profunda análise histórica e política – não podem ser entendidos pela superfície. As explicações, as razões, vivem lá em baixo, no fundo, na infra-estrutura, nas perversões do poder, do nosso poder e dos poderes que sustentamos.

A explicação está lá no fundo do armário, onde a gente não quer mexer, porque sabemos que vai nos custar caro.

O vôo de Madalena

Madalena queria ser livre.

Pensou que se a vida é feita de escolhas, boas escolhas faria e boa vida viveria. Que se a vida é feita de esforços e recompensas, muito se esforçaria e os céus conquistaria.

Madalena queria ser como os pássaros. Esses podem voar por volumes ilimitados, pousar onde acham belo, sentir a brisa no rosto, comer das mais doces frutas.

Diferente dos pássaros, Madalena nasceu sem asas. Restrita à mediocridade de ter um nascido em berço comum, em bairro comum, em família comum. Gente comum não voa, rasteja.

Quais seriam as escolhas, então, para Madalena passar de rastejante a alada?

Lhe disseram, desde cedo, que o nobre esforço do estudo e do trabalho premiaria os melhores com asas para alçar tão sonhado vôo e deixar os rastejantes para trás.

A vida correta seria então aquela do suor pingando da testa, das provações e das privações, da poupança e da paciência, pois essa, e somente essa vida, poderia torná-la um dentre os melhores, os mais fortes – os que voam.

Rastejante ainda, precisava de um emprego, um casulo para iniciar sua metamorfose de larva a borboleta.

Em sua primeira entrevista de emprego, o patrão explicou:

– “O salário é de mil e trezentos. Entra as 8 e sai as 5, de Segunda a Sábado. Almoça no refeitório. Tem que vir de social, a não ser de Sexta. Você vai responder para o Mario Mendonça, nosso coordenador. Terá que bater metas que estabeleceremos no começo do semestre. Precisa se integrar com a cultura da empresa e absorver nossos valores.”

O patrão alado tinha escolhido seu salário, seu horário, o que ela iria vestir, o que ela iria comer, o que iria fazer, quem iria obedecer e até que valores iria ter no seu coração. Madalena, rastejante, não pode exigir nada, apenas aceitar ou recusar e ficar desempregada.

Decidiu recusar, ainda assim – era livre e não era obrigada a aceitar essas condições ridículas.

O patrão contratou então Joana, a próxima da fila, que estava com o aluguel vencendo e acabou topando.

É certo que Madalena também precisava do emprego, mas poderia buscar em outro lugar, tinha paciência.

E assim foi, rumo à segunda entrevista:

– “Salário de mil e duzentos e mais vale-refeição. Tem que vir de social, todos os dias…”

Nada feito. Na próxima:

– “Salário de mil e cem, com refeitório no local…”

E em muitas outras:

– “Tem que vir de social…”
– “Novecentos mais cesta básica…”
– “Vai ficar embaixo do Mauro…”

Parecia ser obrigada a aceitar um mal negócio voluntariamente – e achou isso uma idéia sem pé nem cabeça.

Depois de muita busca, viu o seguinte anúncio:

– “Salário de dois mil. Entra às 8 e sai às 5, de Segunda a Sexta. Não precisa vir de social. Em 2 anos poderá virar coordenadora.”

Nada mal! Madalena viu ali uma oportunidade, e não a largaria. Enfim colheria os louros do mérito de sua paciência, perseverança e esforço: trabalharia de jeans, ganharia dois mil e batalharia para virar coordenadora em meras 3.840 horas de trabalho! A glória!

Mas a empresa decidiu, infelizmente, contratar Marcos Lima, porque ele tinha mais experiência.

Humildade era a virtude que lhe faltava, disseram: rastejava de cabeça muito erguida para quem não tinha passado ainda pelos batismos de fogo da experiência profissional.

Abaixou a cabeça, colocou o salto-alto dolorido, o despertador para as 5, subiu no ônibus lotado e atravessou a cidade para trabalhar em um dos mal pagos e odiosos empregos que antes recusara. Almoçou a comida que o patrão ofereceu, fez o que patrão mandou, foi embora a hora que o patrão deixou.

E assim rastejou por 6 de cada 7 dias de sua vida durante anos.

E anos depois, mais experiente, Madalena se candidatou e finalmente conseguiu um emprego naquela empresa que a tinha rejeitado antes.

E agora, ganhando dois mil e pouco e folgando também aos Sábados, se sentiu recompensada. Seu patrão até a deixava usar tênis – quanta generosidade!

E em quatro anos, virou coordenadora. E em mais cinco anos, virou gerente.

Foi gerente do departamento por muitos anos e agora, aos quarenta, com dois filhos, não mais conseguia ter a dedicação que tinha para exceder as metas. Não podia perder o emprego tampouco, pois sabia da dificuldade de arrumar um emprego nessa idade.

Nunca se tornou diretora, muito menos patroa. Seu rastejo tinha atingido sua altura máxima. Para Madalena, isso era o máximo que ela jamais teria na vida – já era.

No seu último dia de trabalho antes de se aposentar, Madalena tomou coragem, entrou na sala do seu patrão e disse:

– Dediquei minha vida a batalhar pelo meu sonho de ser um pássaro, mas mesmo depois de quarenta anos aprendendo a voar, continuei rastejante. Onde foi que eu errei?

E seu patrão respondeu, sábio:

– Para ser um pássaro, não basta aprender a voar. É preciso aprender também a cagar na cabeça dos outros.